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VARGENTIMMEN: A hora do lobo, Ingmar Bergman

Como muitos de vocês tem conhecimento sou um cinéfilo inveterado e participo de muitas comunidades dedicadas ao cinema nas redes sociais. Uma delas é simplesmente fantástica e chama-se “SÉTIMA ARTE” é capitaneada pelo meu nobre amigo Sérgio Pacca, cujo os textos muitas vezes adornam as aberturas do meu programa semanal VOX VAMPYRICA. Graças a postagem sensata e rebuscada de um dos integrantes desta comunidade o Roberto Tevo, pude descobrir uma das maiores obras primas cinematográficas de Ingmar Bergman: VARGTIMMEN (A Hora do Lobo de 1968), com vocês as palavras que me chamaram a atenção:

Johan Borg é um artista, papel de Max Von Sydow (ele mesmo, o padre Merrin de O Exorcista), que muda-se com sua esposa, Alma (Liv Ullmann) para as Ilhas Faroé a fim de um exilo durante uma temporada, para desenvolver seu trabalho como pintor e artista plástico. Não precisa dizer que sua vida se transformará a partir desta mudança e do ponto em que ele se torna insone e seus pesadelos começam a ganhar vida, principalmente quando confrontada pelos outros bizarros “habitantes” da ilha.

Alma, reprimida, é a personagem que rompe o silêncio de Johan de forma forçada, impedindo-o até certo ponto de deixar-se cair no mundo melancólico e absorto em qual vive. Cada frame em que apresenta a convivência entre ambos, parece ser possível se cortar o ar com uma navalha. Como se não bastasse a opressão que nos sufoca na dinâmica do convívio entre marido e mulher, uma verdadeira horda de pessoas estranhas começa a surgir na vida de John, que irá lhe tirar do eixo. Todas essas pessoas são narrada por Johan à sua esposa e expressas em seus rascunhos. Entre eles, uma velha que não pode tirar o chapéu, caso contrário seu rosto cai, os canibais, os homens pássaros, os homens aranhas, entre outras bizarrices. Momento chave para que as coisas comecem a degringolar é quando esses personagens começam a aparecer justamente para causar inquietação e discórdia no casal, que são convidados para um jantar desconcertante no castelo do Barão Von Merkens.

Lá, entre inúmeras conversas fúteis, risadas exageradas, personagens ácidos e caricatos, sombras e close ups perturbantes, Bergman faz com que encarnemos em Johan e nos faz sentir nada a vontade, querendo sair de nossas peles, tal como o personagem em cena. Esse desastre de reunião social, já com o casal tão pouco a vontade, culmina quando Johan, ali apenas para fazer o papel de bobo da corte, tem suas inspirações e pretensões artísticas ironizadas pelos algozes na apresentação em forma de teatro de bonecos de A Flauta Mágica.

“Hora do Lobo é o espaço entre a noite e a madrugada. A hora em que a maioria das pessoas morre, e que a maioria das pessoas nasce, e que os pesadelos são reais e que a angústia nos persegue”. Essa é a explicação de Ingmar Bergman, segundo os antigos, sobre o termo que nomeia seu filme: A Hora do Lobo. E é neste espaço de tempo contínuo permanente que o diretor irá nos jogar como espectadores de seu labirinto tétrico de pesadelos. Um filme hermético, difícil de sintonizar no surrealismo impresso pelo diretor. A Hora do Lobo é sufocante, estranho, recheado de cenas bizarras em uma lindíssima fotografia preto e branca sombria, quase expressionista de Sven Sykvist, onde Bergman desconstrói o maior horror de todos: a loucura humana. Não há nenhum monstro, nenhum perigo “tangível”. Há apenas a perturbação da mente, que essa sim, pode criar os piores monstros imagináveis para si mesmos, capaz de gerar tortura psicológica e o fim do discernimento do que é real e o que é macabra fantasia. ROBERTO TEVA

hqdefaultMuitas vezes apenas precisamos ser apresentados para aprendermos a apreciar filmes incríveis! A questão do lobo nas terras do norte são particularmente densas e atraentes para todos nós afins e do “Sangue”. Desde os “Ulfheadjars” guerreiros nórdicos que lutavam em estado extático sob o poder do totem do lobo, e usavam a pele destes animais sobre seus corpos; estranho rito Varrengue que chegou até a integrar a guarda pessoal do Imperador de Constantinopla posteriormente. Contam até que ao deixarem a cidade durante sua famosa queda levaram de volta para o norte incontáveis grimórios e sabedorias hoje perdidas. Já explorei esta questão aqui na REDE VAMP, no artigo Entre Lobos e Dragões.

O lobo também é o ancestral ou espírito totêmico de incontáveis famílias e moradores de diversas regiões por lá (ao norte da Europa) e em todo leste europeu por onde se ramificaram com suas navegações através dos grandes rios. Desde a idade da pedra a parceria entre os humanos e os lobos são notáveis, a obra White Fangs de Jack London tem um de seus trechos mais belos reconta o sonho de um cão com tempos arcaicos onde ele e seu humano enfrentavam incontáveis perigos na idade da pedra.

Mais recentemente o autor e roteirista George R.R. Martin (Mais conhecido por Game of Thornes ou Crônicas de Fogo e Gelo) no seu livro SONHO FEBRÌL (Editora Leya, logo tem video dele por aqui) abordou de forma única neste romance a questão dos mitos e lendas de vampiros e lobisomens descenderem de um único povo quase imortal e virtualmente invulnerável que enlouquecia sob o luar cheio e precisavam aplacar sua fúria e loucura com carne e sangue humano.

HourOfTheWolfO folclore e o imaginário associado  ao “lobo” e o “homem-lobo” é mais vasto do que o arsenal hollywoodiano pode abordar. Aliás a questão se estende ao continente norte-americano também e encontra ressonâncias e convergências no folclore e no mistério dos WENDIGOS, tema abordado na coluna VIA ESCARLATE. O arquétipo do homem-fera, as questões doravantes ao espírito caçador e do coração feral são encontradas através de incontáveis ressugências atávicas, muitas vezes veladas sob o tema de lenda, folclore, ficção ou ainda cultura pop. Inclusive no Brasil o Lobisomem é um personagem bem influente, conforme vemos neste outro artigo.

Deixando a fantasia e rumando para a arqueologia e a mitologia encontraremos muitas deídades que tinham o lobo como sua expressão neste selvagem jardim, Hades dos gregos vestia um capuz de lobo. Na velha Romênia os espíritos dos ancestrais vinham como névoa e então se transformavam em lobos para conversarem com seus xamãs, conforme cantam em suas Doinas e celebram em suas Strigoiacas. Até mesmo Freud se viu em maus lençóis e sua teoria psicanálitica quase foi derrubada pelo seu malfadado caso do Homem-Lobo, um pedregulho daqueles que perdura até hoje nos anais da psicanálise e da psicologia moderna. Para finalizar este prelúdio apenas acrescentaria que a “VARGENTIMMEN” ou hora do lobo equivale no Brasil ao horário temido do meio da madrugada pelos diversos cultos e tradições espirituais brasileiros. Mais uma vez a sabedoria perene espreita como uma caçadora por toda parte, muda apenas o nome daqueles temores mau-resolvidos (segundo os modernos e pós-modernos) ou daqueles demônios e fúrias sedentos (segundo os pré-modernos) que devoram a presença de espírito e por extensão a carne de todos humanos.

“A Hora do Lobo” é uma das grandes obras-primas do mestre Ingmar Bergman e seu único filme de terror. Edição Especial com vários extras, incluindo making of e entrevistas. Tudo funciona à perfeição: a direção magistral de Bergman, a fotografia expressionista de Sven Nykvist e as atuações viscerais de Max von Sydow e Liv Ullmann. Um filme difícil de se esquecer. O pintor Johan e sua esposa grávida, Alma, retiram-se para uma ilha isolada. Johan é consumido por demônios do passado e por constantes alucinações. Alma tenta ajuda-lo a manter a sanidade e controlar sua obra. Mas durante a escuridão entre a noite e o amanhecer, a chamada “hora do lobo”, os medos de Johan podem se concretizar…”

 

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