Dama Leto e o dia da Mulher (do Apocalipse)

Back to Blog

Dama Leto e o dia da Mulher (do Apocalipse)

Dama Leto e seus gêmeos Apolo e Artémis

[Um texto de Lord A:.] Feliz Dia  das Mulheres!
Façam o dia de hoje e todos os dias melhores nem que seja apenas para você, coletivos são formados por indivíduos e o que precisa ser ajustado demanda investimento, resiliência e números. Quem irá colher um mundo melhor não será a nossa geração, somos um meio para melhorar as coisas para quem ainda virá. Logo, desejo perseverança, empatia, queixo para o alto e luz no olhar para que prossigam e invistam para que venha um mundo melhor. O que vivemos hoje é um sintoma de algo que se arrasta a dois mil anos pelo menos. Fazem muito barulho sobre os sintomas e consequências dele, mas são poucos que tocam na “causa” afinal ela é delicada e afeta cada um sem exceções. A reação comum perante isso é retirar a sacralidade, negar prontamente ou ainda “coisificar”, uma forma de retribuição e continuidade ao círculo vicioso e os ruídos que dispersam o foco da causa dos males combatidos hoje nesta data. Vamos então contextualizar o foco e a causa na igreja e seus dogmas.

“No Cristianismo o feminino só passou a carregar um sentido mais positivo e sacro depois de um milênio, quando inicialmente Sant´Ana e em seguida Nossa Senhora passaram a receber culto para afastarem a fome da Europa ” 

É bastante conhecido que os primórdios da igreja católica romana foram marcados pela delegação da mulher ao inconsistente, a ameaça e o terrível – basicamente ao que precisava vir a ser sujeitado e submisso através do elemento ou mesmo da polaridade masculina. Veremos isso no trato e na aparência essencialmente feminina dada aos elementos filosóficos água e terra nas sagradas escrituras e também as trevas ou a escuridão. É uma interpretação de inferior ou de algo a ser dominado e possuído (mais ou menos como é tratada a natureza ou o ecossistema), cada doutrina interpreta a sua imagem e semelhança. Sabemos que isso é uma herança das escrituras selecionadas pela cúria romana vindas dos hebreus que destacassem tal aspecto. E como todo poder expressa justificativas na forma de estética e filosofia para assegurar sua continuidade, um vasto universo foi estabelecido com base na imagem e semelhança destas regras – e ele é aceito como naturalidade ou algo inquestionável há muitos séculos. Se as coisas não vão bem para as mulheres hoje, cobrem pelos danos sofridos (se é que adianta) da igreja; o feminino só passou a carregar um sentido mais positivo e sacro depois de um milênio e alguns séculos de cristianismo, quando inicialmente Sant´Ana e em seguida Nossa Senhora passaram a receber culto para a Europa fugir da fome que se abateu sobre ela. O papel das santas na intermediação entre o divino e o profano foi ganhando mais espaço e se aproximando um pouco mais do que temos hoje (inegavelmente diferente do que é retratado na Bíblia). Sintetizando aquilo que pertence ao feminino foi associado ao vício, a oposição, a mortalidade, ao impróprio e o demonizado a maior parte do tempo no catolicismo e seus desdobramentos e dissidências ao longo do tempo. O feminino foi reduzido a expressão da “mater dolorosa”, ou a mãe que agoniza pelo destino do filho ou a santa que renuncia a própria vida como mulher, com raras concessões nos últimos 800 anos e um pouco mais de liberdade nas últimas quatro décadas. A culpa é da serpente que tentou Eva e ponto final.

[space height=”10″ ]

E viu-se um grande sinal no céu: uma mulher vestida do sol, tendo a lua debaixo dos seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça.E estava grávida, e com dores de parto, e gritava com ânsias de dar à luz. E viu-se outro sinal no céu; e eis que era um grande dragão vermelho, que tinha sete cabeças e dez chifres, e sobre as suas cabeças sete diademas. 
Apocalipse 12:1-3

[space height=”10″ ]

William Blake

Os textos bíblicos contêm incontáveis personagens femininas interessantes e dignas em suas próprias expressões, mas particularmente uma delas presente no Apocalipse de São João sempre me chamou a atenção desde a infância: “Uma Mulher grávida vestida do sol com a lua debaixo dos seus pés e uma coroa com 12 estrelas”! Ela vem sendo perseguida por um dragão de muitas cabeças por onde quer que passe, mesmo assim ela dá a luz a um garoto predestinado a chefiar as nações que é arrebatado para o lado de Deus. Além disso a mãe ainda recebe asas de águia e lhe é oferecido um refúgio. Ainda assim o dragão vai atrás dela e depois de um combate épico é derrotado pelas hostes do seu filho agora endeusado. Eu resumi para fins didáticos. Como pagão e voraz consumidor de autores como Joseph Campbell e Robert Graves qual não foi minha surpresa quando li sobre a dama Leto, que se enamora por Zeus e como toda amante dele engravida e desperta a ira de Hera sua esposa (Deusa da Terra) que proíbe o solo de oferecer pouso para Leto dar a luz e ainda coloca atrás dela um dragão de várias cabeças pavoroso chamado Python. Ela receberá asas de águia e uma ilha é criada como refúgio para ela poder dar a luz, dela nascem os deuses Artémis (ou Diana) e Apolo. Que logo serão arrebatados pelo pai e que Apolo virá para salvar a mãe ao se apropriar plenamente de seus poderes e dar cabo do pavoroso dragão. Qual não foi minha surpresa em constatar que o São João do Apocalipse escreveu seu relato na ilha de Patmos, ao sul de Eféso, onde foi um dos maiores, mais prósperos e ativos santuários da deusa Artémis (ou Diana) naquela época (tal paradeiro é mencionado também na obra The Vampyre, de Polidori, erroneamente atribuída a Lord Byron). Existem até más línguas por aí, que insinuam que o texto do Apocalipse tenha inclusive sido desenvolvido sob influência do enteogenico Amanita Muscárya, nascidos de cogumelos próximos das raízes dos carvalhos do bosque de Dordona e um fundamento religioso comum daqueles tempos para os que buscavam a visão e a comunhão com o sagrado. Mas esta última parte fica como uma gentil especulação da minha parte.

Ilha de Patmos, onde foi escrito o Apocalipse Bíblico, pertinho do Templo de Diana (Éfeso)

Não direi que a dama Leto e a Mulher do Apocalipse são a mesma personagem, mas acho interessante e irrefutável a constelação e similaridade de ambas as histórias quando reflito sobre onde o Apocalipse de São João foi escrito. Vale notar que tal livro sagrado do cristianismo atesta a diferença do papel da mãe no politeísmo e no vindouro monoteísmo. Leto é a representação do feminino sagrado, onde Zeus representando o sagrado masculino se une a ela em igualdade para fecundar e gerarem a continuidade da linhagem e das forças que regem o alto e o baixo. Dessa união nascem gêmeos em igualdade de condições, se pensarmos Artémis nasce inclusive primeiro e auxilia a mãe durante as dores do parto. No caso da Mulher do apocalipse ela está coroada por estrelas, vestida de sol e com a lua aos seus pés, poderíamos falar longamente destes símbolos e seus significados, mas a ela é dado um tom calamitoso que ilustra o temor monoteísta a sacralidade e a igualdade feminina que contraria seu discurso e desejo de poder. Se este texto fosse lido por egípcios a tal mulher sem nome do Apocalipse teria sido vista como a própria deusa Isis grávida de Osíris e prestes a dar a luz a seu filho Horus, quando se via perseguida por Set no calor do verão, antes da cheia do rio Nilo onde em uma de suas ilhas poderia encontrar um solo acolhedor. O simbolismo da escuridão ou as trevas, remetem ao ventre versam sobre o repouso, o útero e a sustentação para a nova vida, a luz ou ainda o sol que virá – ou ainda a gruta escura e a cova que guardará o corpo depois da morte.

[space height=”10″ ]

A lua e a escuridão (ou as trevas) são metáforas para o feminino sagrado de todos os tempos, é a mulher quem dá a forma ao potencial, em seu ventre e assim também entrega aos filhos que vem através dela o tempo e a finitude.

[space height=”10″ ]

WitchStone em Gottland tempos Varrengues, Melusigna na França Medieval e na cultura pop atual

A lua e a escuridão (ou as trevas) são metáforas para o feminino sagrado de todos os tempos, é a mulher quem dá a forma ao potencial e assim também entrega ao que vem através dela o tempo e a finitude. Embora a morte sempre tenha sido levada como evidente desconforto em todas as épocas, era uma parte natural da jornada. Já para a noção da vida eterna católica, retorno dos mortos a vida e outras variações, isto seria um problema (transe extático, experiência de quase morte, voltar dos mortos no próprio corpo, como fantasma, corpos que não se decompõem e outras ressureições sem o voucher da igreja seriam ações do seu opositor). Até mesmo por conta disso você está lendo um artigo assim num site Vampyrico. O feminino e o masculino se complementam e formam o sagrado casamento alquímico que renova a vida no mundo. O masculino é associado ao solar e o consciente entre os povos latinos e gregos, gerado na escuridão da fêmea e a ela pertence o sagrado mistério de literalmente dar a luz a vida. No selvagem jardim equivale aos primeiros dias posteriores ao solstício de inverno, quando o sol volta a aquecer o hemisfério norte degelando e renovando a vida. (vale pontuar que entre os germânicos e os povos do norte da Europa, o Sol é uma deidade essencialmente feminina e o Lunar pertence ao masculino, falo mais disso aqui)

Estranho a ausência destas observações entre meus pares tanto no paganismo quanto no ocultismo e até mesmo em espiritualistas, terapeutas holísticos (de grandes portais da internet, comento o caso detalhadamente neste artigo) ou religiosos de cultos afro-brasileiros que ao abordarem o lunar, a escuridão, a morte (nada mais que o contraponto do nascimento) e até a descida do sangue lunar (falaremos disso em nosso novo livro) repetem os mesmos preconceitos e distorções virulentas propagados nestes últimos dois milênios pela cristandade a respeito da sacralidade feminina e todo seu contexto e simbolismo. A própria cauda de serpente (quem lembra de Melusigne, falei dela no livro Mistérios Vampyricos) associada as mulheres nas representações como feras míticas, agora demoníacas, nada mais era do um símbolo do menstruo e de operações míticas relacionadas aos Kalas e os Chakras herdados do oriente. (Inclusive uma das possíveis origens do que nomeamos como vampiros hoje, tem sua origem numa corruptela destes ritos). Mais do que nunca o vampiro continua sendo a encruzilhada, o totem, o tabu e a máscara que oferecem o espaço de convivência velado para a integração e compreensão destes conteúdos e poderes ainda tratados como proibidos.

[space height=”10″ ]

Estranho a ausência destas observações entre meus pares tanto no paganismo quanto no ocultismo e até mesmo em espiritualistas, terapeutas holísticos ou religiosos de cultos afro-brasileiros que ao abordarem o lunar, a escuridão, a morte e até a descida do sangue lunar  repetem os mesmos preconceitos e distorções virulentas propagados nestes últimos dois milênios pela cristandade a respeito da sacralidade feminina e todo seu contexto e simbolismo.

Facebook Comments

Share this post

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Back to Blog