Edward Mordrake: Realidade ou Ficção?

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Edward Mordrake: Realidade ou Ficção?

Saudações, queridos leitores!

Acredito que para boa parte dos meus leitores, o nome Edward Mordrake soe bastante familiar. A questão é: ele realmente existiu ou foi apenas invenção de um escritor?

Para quem está chegando a este mundo agora, reza a lenda que Edward Mordrake foi um rapaz que nasceu com uma rara deformidade em seu crânio. O jovem, dito herdeiro de um título da nobreza britânica, tinha um belo rosto na parte frontal do seu crânio, porém também tinha uma pequena e estranha face feminina em sua nuca. Não era outra cabeça, apenas outro rosto que segundo Mordrake (originalmente grafado Mordake) sussurrava coisas terríveis para ele durante a noite, o impedindo de dormir. Aos 23 anos, Edward Mordrake cometeu suicídio, porém deixou uma carta com instruções para que o rosto “demoníaco” fosse destruído antes do seu enterro, pois somente assim poderia desfrutar do sono eterno.

Soa familiar agora? O homem com duas faces? Sim, é dele que estou falando.

mordrakePor muitas décadas, estudantes de medicina e pesquisadores procuraram respostas plausíveis para este caso que se tornou mundialmente popular após ter sido publicado em um livro intitulado Anomalies and Curiosities of Medicine em 1896. George M. Gould e Walter L. Pyle, dois médicos americanos que foram os autores desta “coletânea” de casos curiosos de pessoas que nasceram com anomalias. O interessante é que sempre se recusaram a dizer quais eram as fontes dos casos que descreveram e ilustraram com figuras e desenhos ricamente detalhados.

O que nem todo mundo sabe é que a história de Mordrake já havia sido contada, exatamente como consta no livro do Dr. Gould e do Dr. Pyle, um ano antes dele ser publicado.

A primeira vez que o caso de Edward Mordrake veio a público foi na edição de 8 de Dezembro de 1895 do então famoso jornal Boston Sunday Post. O artigo enviado pelo escritor e jornalista Charles Lotin Hildreth (1853-1896) vinha com o título de As Maravilhas da Ciência Moderna: Alguns Monstros Meio Humanos que Pensavam ser Descendentes do Diabo. Dentro do artigo, havia uma série de descrições de criaturas que nasceram híbridas ou com deformidades dignas de “monstros” que já habitavam o inconsciente coletivo naquela época. Segundo Hildreth, tais casos foram retirados de relatórios antigos de comitês da Royal Scientific Society. Dentre todos os relacionados no artigo, o caso de Mordrake foi o que teve maior repercussão entre os jornais da época que republicaram sua história.

Sendo assim, até então, qualquer pessoa chegaria à conclusão de que sem dúvidas a história de Edward Mordrake era verídica, afinal foi publicada em diversos jornais como sendo um artigo não ficcional, assim como posteriormente foi analisado e republicado por Gould e Pyle em seu famoso livro.

Mas agora, após ler muitas pesquisas realizadas por médicos e estudantes de medicina e por curiosos em geral, posso dizer que Edward Mordrake foi concebido pela imaginação de Charles Lotin Hildreth.

Os fatos

  1. Não foi encontrada nenhuma evidência da existência de uma instituição que levasse o nome de Royal Scientific Society (“Real Sociedade Científica” em tradução literal). O que existe é a Real Society of London (em português: A Real Sociedade de Londres para o Melhoramento do Conhecimento Natural) que tem como objetivo a promoção do conhecimento científico, mas tudo o que foi publicado por tal organização desde a sua fundação, já foi digitalizado e pode ser encontrado online. Como devem imaginar, durante a pesquisa nos arquivos desta instituição, não foi encontrada nem sequer uma alusão a nenhum caso parecido com o de Mordrake ou de quaisquer outros seres fantásticos descritos por Hildreth no famigerado artigo.

  1. De acordo com médicos especialistas, as chances de um ser humano com um rosto parasita conseguir sobreviver por mais do que alguns meses é muito remota. Mesmo que fosse um caso de craniopagus parasiticus, ou seja, de Edward ter como parasita a cabeça completa do que seria um gêmeo que não se desenvolveu, ele não sobreviveria por longos 23 anos. Outro detalhe que não posso deixar passar é que se fosse um caso de craniopagus parasiticus, o gêmeo seria idêntico e do mesmo sexo que Edward. Sendo assim, ele não poderia ter uma face feminina na parte posterior da sua cabeça. E no mais, como poderia ser de outro sexo se era apenas um rosto?

  1. Quando outras publicações de Hildreth (que além de escritor e jornalista também era um poeta fortemente influenciado por Edgar Allan Poe) foram pesquisadas, o embuste ficou bastante claro. Hildreth costumava ter muitos dos seus contos publicados em jornais daquela época, contos de que hoje seria considerado como ficção científica ou ficção especulativa. É também autor de um livro infantil em que são narradas as aventuras de um garoto que descobre uma pequena civilização de origem grega no interior da Austrália. Não seria impossível para Hildreth inventar uma série de personagens bizarros.

  1. Era muito mais comum que jornais daquela época publicassem artigos falsos como sendo reais do que você pode imaginar. Inclusive o próprio Edgar Allan Poe chegou a publicar meia dúzia de contos como se fossem relatos de casos reais, mas na verdade não eram e os donos dos jornais sabiam disto, mas mesmo assim publicavam como sendo histórias reais. Um grande exemplo é uma famosa história sobre uma árvore em Madagascar que se alimentava de homens.

Sim, meus caros leitores, as pessoas por muito tempo acreditaram que existia uma árvore que se alimentava de homens, assim como foram para o túmulo acreditando que Edward Mordrake existiu e infelizmente, seu criador também não viveu para ver o sucesso de sua criação. Hildreth morreu em agosto de 1896, meses antes da história de Mordrake ser publicada no livro de Pyle e Gould.

Uma pena, porque certamente ele ficaria orgulhoso de si mesmo por ter criado um personagem que por mais de um século aguçou e ainda aguça a imaginação de tantas pessoas ao redor do mundo.


Artigo postado originalmente em aviaescarlate.blogspot.com //

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