UTHARK, que papo é esse?

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UTHARK, que papo é esse?

Vamos começar pelo básico e o mais simples. Tudo geralmente se inicia como algo caótico, vasto, incontrolável, indomável, feral, potente, não modelado e grotesco como tudo aquilo que é novo diante da gente. A maneira como algo se inicia também é diferentissima do que encontraremos em dado momento – ou do que reencontraremos futuramente. Nada nasce pronto e vai se desenvolvendo e reconhecemos o que nos é familiar em dado momento. Até ganharmos sabedoria ou vivência para lidarmos com aquilo e principalmente tirarmos lições dali vai tempo e trabalho na maior parte dos casos. Em outras palavras, pegamos algo bruto, modelamos e refinamos até chegar ao seu melhor e se tornar uma benção ou recompensa na vida da gente ou do coletivo ao nosso redor. Se projetarmos isso no passado até você domar o Auroque ou Yate (ambos tem algo do simbolismo da esfinge mediterrânea) e o tornar um rebanho próspero e lucrativo no seu pasto, uma benção ou recompensa vai tempo e trabalho. Como dizemos no Cìrculo Strigoi pisar as brasas do inferno até se tornarem chamas estelares…

O trabalho gráfico e a diagramação da obra pela Isabella Giordano ficou fantástico!!

Se você entendeu isso, você já pegou o ponto básico da teoria do professor Sigurd Agrell, que é apresentada na obra UTHARK Lado Noturno das Runas do Phd Thomas Karlsson, da Universidade de Estocolmo e fundador da Ordo Dragon Rouge (leia nossa entrevista exclusiva com ele!), lançada recentemente pela Penumbra Livros. Claro que falar sobre Uthark é algo muito mais delicado e complexo. Mas vale afirmar que este livro é uma obra seminal e necessária que também compreende expressões e maneiras de se ver e entender a cosmovisão dos povos nórdicos, sem os excessos fantasiosos, purismo histórico forçado ou viés demasiadamente jungiano que preenchem o contexto editorial brasileiro quando o assunto são as runas.

Uma obra clara, concisa, atual e direta na sua proposta. Outro destaque para lá de especial é o trabalho gráfico de muitissimo bom gosto na diagramação da obra e também da escolha de capa que ficou a cargo da artista Isabella Giordano. Ela captou o tom do autor de busca espiritual como algo celestes, mas que envolve uma dimensão sombria singular. Nas palavras de Isabella: “(…) Dessa forma, a textura do texto original, que era homogênea e corrida, é cortada com pesos de negrito e espaçamentos largos; e as páginas limpas, com espaços em branco generosos, contrastam com cortinas completamente negras. Como um eclipse, o novo formato é dinâmico, cheio de fluxos e refluxos. Esse texto, assim como o de Mágicka Visual, pretende mostrar o quanto as escolhas dessa publicação partiram de motivos que vão para além de um gosto subjetivo, mas consistiram em um estudo sistemático da melhor forma de evocar um livro.(…)” não deixem de ler este artigo completo lá no site da Penumbra.
que

 

Outro ponto importante é que o livro só estará a venda na loja da Penumbra, compre o seu aqui! 

 

Nas palavras de Thomas Karlsson o livro Uthark – Lado Escuro das Runasé um manual prático para magia rúnica. É baseado numa teoria controversa advogada por Sigurd Agrell, um professor sueco nos anos 30. Ele dizia que a série de runas era uma cifra e que através dela entenderemos seu real significado. Basta você colocar a primeira runa (Fehu) por último. Assim o  chamado”futhark”se torna uma “uthark”. Ao redor dessa teoria reside um sistema fascinante de numerologia antiga e mitologia. As runas são ferramentas muito poderosas para experiências mágicas e ocultas. A iniciação para a magia rúnica é descrita nos velhos mitos nórdicos quando Odin entra no reino da Escuridão e dos Mortos através do auto sacrifício para se tornar iluminado pelo segredo das runas. Inclusive não deixe de ler nossa entrevista com ele!

 

Ei Lord A:. me explica esta tal de sequência Uthark!

Interpretação de Lord A:. e Círculo Strigoi

Sabe quando você leu no livro #Mistérios Vampyricos  a respeito dos antigos ritos de fertilidade da terra, guildas de profissões marginais e celebrações realizadas nos 12 ou 14 dias ligados ao Solstício de Inverno ao norte da Europa? Ou algo a respeito do mito da Caçada Selvagem lá daquelas terras?

Na obra Uthark O Lado Noturno das Runas, encontraremos material proveitoso e bem estruturado neste sentido. Basicamente os deuses Odin (que assume um tom mais sombrio, como senhor da forca e da foice, imprevísivel como o senhor dos mortos rodeado de corvos e lobos, algo que recorda bastante a visão de Johaness Bureus que é uma influência notória de Sigurd Agrell) e a deusa Hel (como a contraparte ou consorte de Odin e a Senhora do Submundo e parte importante da iniciação Odínica). Ela é a Sagrada, a oculta e ainda seu nome é interpretado como o “Todo” ou o “Abismo” (livre adaptação pessoal) e isso a torna senhora dos túneis e fendas do inframundo; ela é a mãe negra e é de seu útero que nascem ou renascem os deuses nesta visão. A dupla porta do nascimento e da morte estão sob sua alçada (leitores de #CODEX STRIGOI volume 4 irão entender). A vida vem da morte mais do que se pensa e é dela a regência desse entremeios ou entremundos onde vida e  morte se envolvem e se misturam – tudo acontece no seu reino. Uthark é uma passagem ao inferno em outras palavras uma HELWEGR. A via por onde se vai buscar a vida, o calor e a luz que partiu para este renascer após o tal do Ragnarok – conforme falamos no início deste parágrafo, caros leitores e leitoras. Entenda melhor o sentido de Ragnarok do contexto Uthark no livro.

Outros dois personagens mitológicos importantes desta narrativa são Balder (Deus da Luz) e Hermod (Deus Cego), o primeiro é morto por conta de uma flecha envenenada por visco disparada por seu irmão, sob influência de Loki (Deus das trapaças e da engenhosidade flamígera queria provar que nada era indestrutível e a tal planta era a única coisa viva que podia ferir o deus da luz).  Sobrou para Hermod emprestar de seu pai o corcel chamado Slepinir (de 8 patas, uma para cada data sagrada, dizem por aí – e aqui também ou ainda as 8 direções xamânicas para jornadas espirituais) e realizar uma jornada de 9 dias através da Helwgr em busca do irmão para traze-lo de volta a vida (vale notar que 9 dias foi o tempo que Odin ficou dependurado em uma lança na Yggdrasil para obter o saber das runas e que o nome da tal árvore também significa Cavalo de Odin). Integrantes do Círculo Strigoi obviamente unirão os pontos e podem concluir que falamos do Axis Mundi e nas suas inúmeras relações simbólicas a nossa coluna vertebral é a sua correspondência mais óbvia. Na mitologia e iconografia xamânica integrando os ínferos, o reino do meio e o altíssimo trazendo para termos atuais o inconsciente (não-modelado), o consciente e o supra-consciente (aliás, leia isso também).

No livro, Thomas Karlson ainda aponta a tradição das 4 pessoas (8 pernas) carregando as alças do caixão lá no velho norte, cada um dos 3 Aett rúnicos usados no Uthark são compostos por 8 runas. Inclusive ele também relaciona a chamada runosofia e seus atributos numéricos como o da jornada de 9 dias através da Helwegr (3×3, refletir 3 vezes sobre cada um dos 3 aett rúnico, afinal aqui cada runa tem um polo positivo ou luminar, neutro e negativo noturno), as oito patas de Slepinir formando uma curiosa multiplicação de 9X8 rendendo 72 um número cabalístico e faustiano interessantíssimo que equivale ao mítico hebráico Shemraphorash ou ou setenta e dois nomes de Deus – tão caros a tradição ocidental do ocultismo. Tal estudo e prática comparativa é frequente na Ordo Dragon Rouge. E creio que isso tudo dá um retrato bem claro desta prática e o hermetismo continental europeu (Um diálogo inclusive bem rico para temas de Goetia, Angeologia, Tarô e Daemonologia)

Cada Runa na sequência Uthark marca a descida xamânica ou mergulho alquímico as profundezas do cosmo no ventre do reinado de Hel e seu retorno transmutado a vida, o que deixa marcas indeléveis em cada participante. Já adianto que ele é bem detalhado nesta narrativa sobre o significado e sentido de cada uma delas nesta jornada. É a jornada do iniciado para criar a si e então se transmutar em divindade (Sol Niger, eu diria). Há incontáveis outras metáforas que remetem ao ciclo arturiano ou do Graal sobre adentrar o canto mais escuro da floresta, tão brilhantemente evocado por Joseph Campbell e sua jornada do herói. Resumindo, Uthark Lado Noturno das Runas é uma obra indispensável para se pensar e vivenciar as runas fora do policiamento cultural que rodeiam o contexto no Brasil.

*Lá no distante ano de 2012 publiquei 2 artigos basais sobre este livro no meu finado blog pessoal!

 

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