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O papel do mediador

O Codex Strigoi Volume 4 (já a venda neste link) leva nossos leitores ao imaginário e o patrimônio mítico do Império da Suécia nos tempos de Johaness Bureus e suas Adulrunas. Mas não é apenas isso, vamos discutir e aprofundar a prática e a ritualística com os alfabetos sencientes enquanto mediadores e intermediários que estabelecem através do “mundus imaginallis” (o imaginário para uma visão pré-moderna ou perene) o diálogo entre a realidade densa e a arquetípica sob diversas camadas.

O sonho lúcido (ou Arte D´Voar, projeção astral e ainda Dreamwalk) ganha uma dimensão ainda mais poderosa e bastante praticável levando os mais aptos e hábeis poderem deixar suas peles e mapas de realidade mundanos dependurado nos galhos mais elevados da grande árvore e realizarem suas jornadas através da vastidão do longo e aveludado manto negro D´Ela. Aliás, temos algumas palavras bem relevantes sobre tal arte neste outro artigo.

Existe um sabor perene e hermético nesta obra a ilustrar que talvez uma fronteira entre o indo-europeu e o semítico seja apenas uma fantasia moderna. Aliás é interessantíssimo o diálogo entre a sabedoria Sufi e o imaginário que orbitam as chamadas Adulrunas, quando o sonho é a leitura do analfabeto e a leitura o próprio sonho do letrado. Apresentamos de maneira mais detalhada os Sufis neste outro artigo.

Em certo momento do livro falaremos sobre Paracelso (considerado um Hermes Germânico) e de sua influência nos trabalhos do bibliotecário e sábio Johaness Bureus da Suécia e suas Adulrunas. Aliás, para quem está lendo ou tem vontade de entender melhor o papel do mediador, intermediário ou do próprio Hermes, compartilho o texto que segue.

 

As verdades eternas, conhecidas unanimemente e expressadas por sábios de todos os tempos e lugares, plasmaram-se no Ocidente no pensamento de culturas estreitamente inter-relacionadas, que em distintos momentos floresceram em regiões localizadas entre o Oriente Médio e a Europa, durante esta quarta e última parte do ciclo, à qual se chamou Kali Yuga ou Idade do Ferro, e que sempre se vinculou com o Oeste.

Antiqüíssimos conhecimentos, patrimônio da Tradição Unânime, foram revelados aos sábios egípcios, persas e caldeus. Eles se valeram da mitologia e do rito, do estudo da harmonia musical, dos astros, da matemática e geometria sagradas, e de diversos veículos iniciáticos que permitem acessar os Mistérios para recriar a Filosofia Perene, desenhando e construindo um corpus de idéias, que foi o gérmen do pensamento metafísico do Ocidente, conhecido com o nome de Tradição Hermética, ramo ocidental da Tradição Primordial. Hermes Trismegisto, o Três Vezes Grande, dá nome a esta tradição. Na verdade, Hermes é o nome grego de um ser arquetípico invisível que todos os povos conheceram e que foi nomeado de distintas maneiras. Trata-se de um espírito intermediário entre os deuses e os homens, de uma deidade instrutora e educadora, de um curandeiro divino que revela suas mensagens a todo verdadeiro iniciado: o que passou pela morte e a venceu.

Os egípcios chamaram Thot a esta entidade iniciadora, que transmitiu os ensinos eternos a seus hierofantes, alquimistas, matemáticos e construtores que, com o auxílio de complexos rituais cosmogônicos, empreenderam a aventura de atravessar as águas que conduzem à pátria dos imortais.

Autores Herméticos relacionaram Hermes com Enoch e Elias, que seriam, para os hebreus, a encarnação humana desta entidade supra-humana que identificam com Rafael, o arcanjo, também guia, sanador e revelador. Esta tradição judaica, que se considerou sempre como integrante da Tradição Hermética, conviveu com a egípcia antes e durante a cativeiro (Moisés é fruto desta convivência) e em tempos dos reis David e Salomão durante a construção do Templo de Jerusalém; faz ao redor de três mil anos, estes pensamentos se consolidaram numa arquitetura revelada que permitiu, uma vez mais, a criação de um espaço vazio ou arca interior capaz de albergar em seu seio a divindade.

No século VI antes de Cristo, que é o mesmo século da destruição do Templo de Jerusalém, e contemporânea de Lao Tsé na China, de Buddha Gautama na Índia e do profeta Daniel na Babilônia, nasce a escola de Pitágoras que, também herdeira dos antigos mistérios revelados por Hermes, alumiará posteriormente à cultura grega, tanto aos pré-socráticos como a Sócrates e Platão. Este pensamento hermético exerceu sua influência notavelmente na cultura romana, nos primeiros cristãos e gnósticos alexandrinos, nos cavaleiros, construtores e alquimistas da Europa medieval e nos filósofos e artistas renascentistas, nutrindo-se ao mesmo tempo dos conhecimentos cabalísticos e do esoterismo islâmico.

Logo florescem estas idéias hermético-iniciáticas no movimento rosa-cruz, que se desenvolve na Alemanha e na Inglaterra da época Elisabetana, tendo sido depositados estes antigos ensinos, posteriormente, na Franco-Maçonaria. Esta Ordem, que em sua aparência exotérica não pôde escapar à degradação e dissolução promovidas pela humanidade atual, conserva, no entanto, em seus ritos e símbolos esse gérmen revelado e revelador, ativo no seio de umas poucas lojas que conseguiram se subtrair às modas inovadoras que ameaçam a Ocidente com sucumbir, e mantêm esse vínculo regenerador com o eixo invisível da Tradição que se dirige sempre para o verdadeiro Norte, origem e destino da humanidade, do qual esta tradição nunca se separou.

Hermes e a Tradição Hermética vivem atualmente. Sua presença é eterna.

Originalmente publicado em Teoria da Conspiração por Marcelo Del Debbio.

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