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O diário de Nero Bertoli

Este texto é de cunho meramente lúdico

 

20/08/2016

Um ano atrás eu tomei uma decisão que mudou minha vida pra sempre. Larguei tudo e fui atrás daquilo que amava, ou melhor, de quem eu amava. Fiquei sem trabalho, parei os estudos, briguei com minha família e meti o pé pra outro Estado.
Por meses fui o homem mais feliz do mundo e apesar das cicatrizes que já carregava na alma eu perseverei. Altos e baixos ocorriam mas com quem não ocorre? Aprendi a me virar e a cuidar de uma casa e o quão difícil era isso. Não demorou e comecei a me sentir pra baixo e infeliz, aparentemente sem motivo (depressão era um ótimo motivo). Busquei ajuda e me deparei com o fato de se você está doente no Brasil você está fodido.
Trabalhava e estudava, ela por sua vez ficava cada vez mais distante e percebia uma sombra a cobrindo ou seria eu que estava sendo engolido por essa sombra? O mundo se tornava cada vez mais frio e sem vida, acho que posso dizer que essa é a definição de vazio. Alguns dizem que o inferno é assim, ausente de tudo, sendo assim eu vivi meu inferno logo após ir ao paraíso, contraditório? Era como se Deus tivesse descoberto que eu havia falsificado minha lista de pecados X boas ações.
Bem, não dava pra ficar daquele jeito. Numa madrugada o que eu achei que não fosse piorar finalmente melhorou, pois chegou à uma definição e acabou. Sofrimento foi a única coisa que conheci durante alguns dias, mas eu meio que já havia me preparado psicologicamente para aquilo. Mais uma vez eu tinha que desfazer minha vida e começar tudo de novo. Sem trabalho e sem estudo, retornei ao ninho onde fui paparicado pela minha família e me recuperei, ainda que tudo isso tenha sido como queimar a língua, eu perdi o paladar para relacionamentos, a diferença é que eu não sei quando irei recuperá-lo, mas mesmo queimando a língua nunca deixei de tomar café, o mesmo vale para relacionamentos, ainda que estes não sejam tão profundos, dependendo do ponto de vista.
Levar uma vida sem sal nos últimos meses fez bem pra mim, na verdade me faz já que ela permanece assim.
Tô procurando um novo emprego e voltei a estudar, fiz alguns juramentos como todo ser humano após uma desilusão,aprendi algumas duras lições e isso tudo me modificou,se pra melhor ou pior? Não sei,afinal, o que sabemos ser bom ou ruim de verdade? Posso afirma que estou estável e controlado, cheio de esperança no meu futuro, até resolvi escrever um diário! Sinto que consigo ser uma pessoa mais controlada e centrada agora, talvez eu realmente precisasse desse impacto, talvez fosse isso que eu buscava com aquela aposta arriscada, encontrar o pote de ouro no fim do arco-íris ou cair na real de vez.

Essa semana eu recebi uma carta bem estranha. Sério, se liga nos detalhes, primeira coisa que percebi foi o aroma, sim a carta era perfumada, um belo aroma eu diria, algo amadeirado e com um toque meio “natureba”. Virei a carta e pude sentir a textura ligeiramente incomum do papel porém mais incomum que isso era o selo vermelho nas costas da mesma, meu primeiro pensamento foi que eu estivesse sendo chamado pra algum encontro ocultista já que eu ando me metendo muito nesse meio ultimamente (quando você fica muito desocupado seus hobbys podem ficar cada vez mais profundos e bizarros)já que eu andei trocando informações com uma galera pela internet sobre diversos assuntos desde rituais até simbologia, mas nada muito além de teoria e história. Meus dedos correram e rasgaram o envelope com cuidado pra não danificar o conteúdo. Me deparei como uma caligrafia que talvez minha avó dominasse mas a muito não via, na verdade nunca vi nos tempos atuais que não fosse uma reprodução de máquina, eram letras clássicas feitas com cuidado à base de tinta nanquim e provavelmente uma pena (reconheci pois já havia visto um amigo utilizar a técnica pra desenhar). Era surreal, esse povo do ocultismo leva muito a sério essas coisas – eu pensei – mas o texto levou essa ideia de minha mente:

“São Paulo, 13 de Agosto de 2016 da era comum
Caro Senhor Nero Bertoli,
É com imenso prazer que te convido a participar de um petit comité, que se realizará às vinte e duas horas da noite de 27 de Agosto, sábado, no Hotel Fasano.
Teremos uma vernissage com obras dos novos expoentes da família de Lamare, além da exposição de um seleto acervo de pinturas famosas expostas no MASP e na Pinacoteca de São Paulo. Haverá também um sarau, onde todos os presentes poderão apresentar o que há de mais profundo em suas artes próprias – compartilhar, afinal, também é o que nos mantém vivos. Aproveitando deste espaço, faremos anúncios importantes para todos os que vivem, visitam ou representam essa comarca.
Apenas os convidados terão acesso ao evento, mas se necessário levar algum acompanhante, farei as vezes de anfitrião e resolveremos pontualmente. No entanto, adoraria contar com a vossa gentileza em manter este evento restrito, para que possamos aproveitar de um momento intimista e voltado para as artes.
Estou ansioso por sua resposta.
RSVP
Hagnar Faur de Lamare”

Era um convite pra um sarau, talvez fosse das vertentes góticas da cidade. Em todo o caso o evento parece promissor e eu irei conferir, estou pensando até em fazer uma apresentação de flauta doce.

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