O morcego-vampiro na iconografia Ameríndia

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O morcego-vampiro na iconografia Ameríndia

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O morcego-vampiro na iconografia Ameríndia
autoria de Shirlei Massapust

1. — O folclore relativo ao morcego da morte era idêntico em toda a América Central e do Sul, menos no Brasil? Não é possível responder com segurança. Não conhecemos bem o papel do quiróptero na grande diversidade cultural dos índios brasileiros porque todos os códices que poderiam conter informações relevantes foram destruídos.[1] Porém, ainda existem uns poucos vestígios iconográficos. Bem pequenos e, por isso mesmo, alvo fácil de roubos e contrabandos, os muiraquitãs, quase sempre confeccionados em rochas esverdeadas, tinham em geral forma de sapos. Mais raramente, podiam ser talhados também em rochas brancas, em formatos de morcegos, peixes e homens. Associados à cerâmica conduri, os muiraquitãs não são exclusivos da região do Baixo Amazonas. Há informações de sua ocorrência na ilha de Marajó, além de Santarém, Alto Tapajós, norte de Manaus e até nas Guianas e ilhas do Caribe, segundo o professor Eduardo Góes Neves, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP.

A distribuição de muiraquitãs por uma ampla área indica que as populações amazônicas do início do segundo milênio da era cristã não estavam isoladas, e sim integradas em redes de comércio ou em outros tipos de redes que permitiam o contato entre si.[2]

A tradição oral fornece dados mais animadores. A palavra andaraí, que designa no Brasil muitos municípios, bairros e ruas, significa “rio dos morcegos” na língua dos índios cariris, povo indígena com presença marcante no passado, principalmente nos Estados do Ceará, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte. É um mito bastante conhecido no Brasil o de que o vampiro bate as asas sem parar quando quer morder um homem adormecido para sugar-lhe o sangue sem despertá-lo. Num mito análogo dos índios chamis, aparentados com o grupo choko da cordilheira dos Andes colombianos, o herói mítico Aribada mata o morcego Inka (o vampiro) a fim de assenhorear-se de seu poder de adormecer suas vitimas. Tendo obtido sucesso, Aribada passa a entrar durante a noite “onde houver mulheres adormecidas” e pôr-se a agitar um lenço branco e o outro vermelho “para poder abusar delas sem que o percebam”.[3] Paralelamente, nas lendas de muitos índios americanos da região do Norte do país, o morcego aprece na situação de herói galante, defensor da humanidade em crise.[4] Os tupinambás acreditam que o fim do mundo será precedido pela desaparição do Sol, devorado por um morcego. (La religion des Tupinamba; Paris, 1928).

O folclore brasileiro tem muito em comum com a extinta cultura Maia. O capetinha Hu r Aqan Tukur (Coruja de uma perna) é um candidato bem mais promissor ao cargo de saci-pererê que o ‘fradinho da mão furada’ português, que sempre foi bípede. Vuqub Kame (Sete Morte) não difere de sua tradução abreviada, “Seu Sete”, e o acesso à Xibalba (o Inferno) sempre esteve numa encruzilhada. Seu subalterno Kama Zotz (Morcego da Morte) é o mesmo espírito do Morcego que os negros classificaram como exu, que ainda fuma o mesmo tabaco incorporado nos “cavalos” ou médiuns, substitutos dos xamãs.
O excêntrico acervo do Museu de História Natural Wilson Estevanovic, em Uberaba, MG, detém uma criatura de 35cm de estatura composta de restos mortais de animais diferentes; com corpo de símio esticado para tomar a posição ereta humana, garras em todos os dedos e asas de morcego separadas dos braços.[5] O atual proprietário, Wellington Estevanovic, não sabe ou não quer informar à imprensa quem vendeu o artesanato ao seu falecido pai, dando margem às teorias de ufólogos que afirmam se tratar de um fóssil da raça de índios-morcego citada no best-seller de Raymond Bernard, A Terra Oca.

Minha humilde opinião é que a criatura do museu mineiro é um boneco, mas tem caroço neste angu! Em missiva publicada em 1969 o nova-iorquino Carl Huni narrou ao seu correspondente Raymond Bernard o que ouviu dos brasileiros sobre uma comunidade auto-suficiente de “índios-morcego” que “vivem em cavernas e saem à noite para a floresta circunvizinha”.[6] Tais índios estariam sendo responsabilizados pelo desaparecimento de pessoas.

A entrada das cavernas é guardada pelos índios Morcegos, que são de pele escura e de pequeno porte, mas de grande força física. Seu sentido do olfato é mais desenvolvido do que o dos melhores cães de caça. Mesmo se eles o aprovem e lhe deixem entrar nas cavernas, receio que estará perdido para o mundo presente, porque guardam o segredo muito cuidadosamente e não podem permitir que aqueles que entram possam sair.[7]

Estes índios-morcego mitológicos não devem ser confundidos com os Huni Kuî apelidados pelos portugueses de Kaxinawá (Povo Morcego). Segundo Carl Huni, as cavernas que eles habitam Estão próximas do rio Araguaia, “no sopé de uma cadeia de montanhas tremendamente comprida chamada Roncador”.[8]

Quando estive no Brasil ouvi muito sobre as cavernas (…). Desisti de fazer outras investigações por que ouvi dizer que os índios-morcego guardam zelosamente a entrada dos túneis contra as pessoas que não estejam suficientemente desenvolvidas, a fim de evitar aborrecimentos. Em primeiro lugar não querem ninguém que esteja ainda enredado em comércio e que queira ganhar dinheiro.


Sei que uma boa parte dos imigrantes que ajudou na revolta do General Isidoro Dias Lopes, em 1924, desapareceu nestas montanhas e nunca mais foi vista novamente. Foi sob o Governo do Dr. Bernardes, que bombardeou São Paulo durante quatro semanas. Finalmente fizeram uma trégua de três dias e permitiram que 4.000 praças, que eram principalmente alemães e húngaros, saíssem da cidade. Cerca de 3.000 deles foram para o Acre, no noroeste do Brasil e cerca de 1,000 desapareceram nas cavernas. Ouvi a história muitas vezes. Se me lembro bem do local onde desapareceram foi na extremidade sul da Ilha do Bananal.
[9]

Em 1930 o antropólogo Carlos Estêvam de Oliveira esteve fazendo pesquisa de campo entre os índios Apinajés do Alto Tocantins na intenção de registrar sua rica tradição oral. Estes índios acreditam que, num passado remoto, todas as aldeias habitadas por seus numerosos ancestrais se reuniram para invadir e incendiar certa caverna que servia de abrigo a uma “kupe” ou “tribo estrangeira” composta de homens-morcego, intitulada Kupe Dyep.
Tal ardil foi necessário porque os Dyep costumavam degolar as pessoas e animais que pernoitavam próximo à gruta com uma arma branca chamada Ihering, “machados de lua” ou “machados de âncora”, devido à sua forma semicircular.[10] Ou seja, aqueles imigrantes utilizavam uma foice similar a esta lâmina sacrifical em meia-lua, na forma de morcego, representada num pingente de Tolima, Colômbia.

Um missionário chamado Curt Nimuendaju entrevistou os mesmos índios em data próxima e parece tê-los enfastiado com massivo preciosismo, pois obteve uma versão detalhadíssima. Este segundo relato foi compilado por Robert H Lowie em The Apinayé (Washington, 1939) e anexado à obra de referência de Alberto da Costa e Silva, Antologia de Lendas do Índio Brasileiro (Brasil, 1957).

Tanto na versão abreviada compilada por Carlos Estêvam de Oliveira quanto no produto da investigação de Curt Nimuendaju os Apinagés estão convencidos de que os índios-morcego da Kupe Dyep deveriam ser capazes de voar porque seus ancestrais viram suas asas e, à época, um menino encontrou um círculo de pegadas em torno de uma vítima cujos rastros não se estendiam mata adentro. Além disso, eles escapuliram por um buraco no teto da caverna de forma tão ágil que seus perseguidores não os puderam tocar. O tempo e a imaginação colorida dos narradores de lendas se encarregou de fazê-los dormir de ponta cabeça por causa das muitas varas suspensas encontradas na caverna.

Sou se opinião que os Dyep históricos, se existiram, não eram homens híbridos ou quimeras, mas imigrantes estrangeiros que decidiram abrigar-se numa caverna pertencente ao território Apinagé devido à falta de tempo ou paciência para construir moradias mais sofisticadas. Talvez tivessem um objetivo passageiro e específico, como colher plantas úteis ao culto pré-colombiano que só nascem em território brasileiro. Muitos deles, senão todos, andavam vestidos como morcegos, da mesma forma que este xamã representado numa cerâmica Nazca:

Repare que o xamã de Nazca segura o busto de uma criança sacrificada com a mão esquerda, uma lâmina com a mão direita e parece cantar ou orar, pois está de boca aberta. De acordo com os Apinajés, os Dyep também sacrificavam seres humanos com a foice de cabo curto chamada Ihering, provavelmente como parte de um rito religioso. Para isso seqüestravam nativos desatentos. Mas os Apinagés decidiram se reunir para eliminar o inimigo em comum.

No sertão de São Vicente, que se estende próximo ao Araguaia, existe a montanha Morcego. Nela há uma grande caverna com uma entrada em baixo, enquanto que bem no alto há uma espécie de janela. Ali moravam antigamente os Kupe-dyep. (…) Durante muito tempo os Apinagés evitaram passar a noite naquela região, até que um dia dois caçadores e um menino decidiram acampar ao pé da rocha do Morcego. Depois do anoitecer, ouviram cantos vindos de dentro da montanha. Então o menino ficou assustado e se escondeu em uma moita longe do acampamento dos dois homens. Logo após, os morcegos (…) mataram os dois caçadores, mas o menino escapou, e na aldeia contou o que ocorrera.
Então os guerreiros Apinagés (…) saíram juntos para destruir os Kupe-dyep. Quando eles chegaram à rocha do Morcego, imediatamente ocuparam a entrada da caverna, onde amontoaram lenha (…) e puseram fogo à pilha. Assim os kupe-dyep voaram em atropelo pela abertura superior, sem serem feridos pelas setas dos Apinagés. Eles voaram pra o Sul, e diz-se que ainda estão vivendo em algum lugar por lá.
[11]

A habilidade de escalar os paredões íngremes das montanhas para depositar oferendas nos altares erigidos nos picos sagrados das Américas era condição indispensável para alguém se tornar xamã. Portanto não é nada admirável que os índios-morcego, surpreendidos ao mesmo tempo pelo fogo e por uma chuva de flechas, escalassem as paredes pedregosas da caverna na direção da única saída disponível com velocidade ímpar. E se suas asas falsas eram suficientemente flexíveis para ‘bater’ pelo impulso dos movimentos violentos eles certamente pareciam voar parede acima por trás da cortina de fumaça. Tempos depois alguém avistou os Dyep acampando “no sul” e supôs que eles “voaram” para lá.

Os guerreiros Apinagés apreenderam machados e “inúmeros enfeites” abandonados na gruta pelos fugitivos. Um velho foi capturado e morto.[12] “Um menino de cerca de seis anos de idade” foi encontrado “bem no fundo da caverna, escondido por uma pedra”.[13] Este menino viveu pouco. Porém, enquanto viveu revelou-se um pródigo doutrinador determinado a ensinar aos adotantes alguns costumes do seu povo. Era possivelmente um filho de xamã ou jovem aprendiz:

Um dia eles o observaram deitado no chão cantando. “U-ua Klunã Klocire! Klud pecetire!” Então, ele agarrou o cangote com as mãos. Quando os Apinagés perguntaram-lhe sobre isto, disse que seus companheiros de tribo dançavam daquele modo. Os Apinagés ainda cantam a canção do Kupe-dyeb.[14]

Noutra ocasião o menino ensinou-os a mímica do morcego:

O pequeno Kupe-dyep (…) chorava e olhava constantemente para o céu. Como não queria deitar-se de modo algum, seu dono teve subitamente uma idéia. Lembrou-se de que na morada dos Kupe-dyeb não havia camas no chão nem tão pouco postes para dependurar redes, mas havia muitas vigas horizontais. Trouxe um varapau e o colocou horizontamente apoiado nas forquilhas de galhos de duas pequenas árvores vizinhas. Logo que o menino viu isso, trepou em uma das árvores de tal modo que se dependurou no vara pau pelos joelhos, a cabeça para baixo. Encolheu a cabeça, cobriu o rosto com os braços cruzados.[15]

Como a criança “recusava toda alimentação que não fosse o milho” veio a morrer “alguns dias depois de haver chegado à aldeia”.[16] Ora, a exigência de oferta de milho feita pelo aprendiz de sacerdote implica um paralelo notável com a mitologia quiche maia onde os deuses falham sucessivamente na tentativa de criar homens perfeitos de diversos materiais até descobrirem o milho (ah).

Desta vez a operação é tão bem-sucedida que as pessoas que emergem, os antepassados dos quichés, tem uma visão semelhante à divina: videntes que vêem longe, gozam de um sentido de percepção elevado e podem ver e conhecer toda a terra e o céu imediatamente.[17]

Em última análise, milho é carne e sangue; uma substância transmutável como o barro de Adão e a hóstia da comunhão católica. No Popol Vuh um Morcego da Morte (kama zotz) sacrifica o milagroso filho póstumo do deus do milho Hun Hun Ah Pu, chamado Hun Ah Pu. Por este motivo Gordon Melton conclui que o morcego “era essencial para o mito agrícola básico constituído em torno do ciclo de plantação de milho” pois “em sua descida, levava a morte aos grãos de milho quando as sementes eram colocadas na terra, um passo necessário para proporcionar seu renascimento nas colheitas”.[18] Mas o pequeno Dyep não foi capaz de explicar essa complicada fórmula metafísica aos Apinagés.

2 — A decifração dos hieróglifos maias revolucionou os estudos centro-americanos. Mil anos antes que os astecas elevassem o sacrifício humano ao seu apogeu sanguinário, os clássicos maias já haviam criado uma sofisticada gramática ritual, que incluía verbos tais como “decapitar”, “arrancar a cabeça” e “rolar pelos degraus da pirâmide abaixo”.[19] O jogo de pelota habitual em toda a Meso-América também não se tratava de mera competição desportiva. “Estava profundamente embebido das noções de morte e sacrifício, e as cerimônias a seguir ao jogo parecem ter incluído o sacrifício dos vencidos”.[20]

Jogava-se com uma grande bola de borracha maciça, num campo especialmente preparado para o efeito, entre duas equipas opostas. Os campos de jogos mais antigos datam dos tempos olmecas e eram estruturas simples com paredes de suporte feitas em terra. Durante o Período Clássico os campos de jogos em pedra com superfícies de jogo inclinadas apareceram por toda a Meso-América, exceto em Teotihuacan, onde secções rebaixadas da Avenida dos Mortos poderão ter desempenhado o mesmo papel.[21]

Escavações arqueológicas revelaram que pelo menos um rei (Arara Azul) fraturou o crânio e outros ossos jogando isso. De acordo com o Livro da Comunidade (Popol Vuh), escrito em maia quiche, antes do início do jogo de bola os membros do time da superfície convocados para uma partida no subterrâneo Lugar do Medo (Xibalba) precisavam pernoitar em diferentes acomodações que continham terríveis obstáculos tais como frio extremo, fogo, jaguares e lâminas enfileiradas que se chocam umas contra as outras. Um destes locais probatórios era a Casa do Morcego (Zotzi Haa), descrita da seguinte forma na tradução de Gordon Brotherston e Sérgio Medeiros:

Zotizi Haa, u bi, u kay u tihobal
U tukel zotz’ u pam chi haa.
K e tz’itz’otik, K e tz’itilahik.
K e ropop pa haa E tz’apim zotz’.
Ma há bi K e’ el vi.


Zotizi Haa é o nome da quarta provação.
Há apenas morcegos dentro da casa.
Que guincham sem parar; Lançam gritos extremos.
Eles esvoaçam pela casa, Os morcegos cativos.
Nada pode sair.[22]


U tukel zotz’ ch u pam chi haa.
Hun haa chi kama zotz’,
Nimaq chikop.
Kehe ri cha ki tzam, Ki kamizabal.
Hu zuq ch utzinik Ch opon chi ki vach.


Não havia nada além de morcegos dentro da casa,
Uma casa cheia de Morcegos da Morte,
Grandes Feras.
Como facas eram seus caninos, suas armas de matar.
Uma pessoa era imediatamente morta ao se aproximar.
[23]

O Livro da Comunidade (Popol Vuh) que conhecemos hoje pertence ao acervo da Newberry Library, em Chicago. Trata-se de cópia de um manuscrito indígena dos nativos de São Tomás Chuilá (atual Chichicastenango), transcrito no século XVIII pelo dominicano Francisco Ximénez. Devido ao fato de ter sido traduzido e adaptado ao alfabeto latino pelos próprios índios, entre 1554 e 1558, o Popol Vuh costumava ser considerado a principal fonte arqueológica sobre a cultura Maia antes da decifração dos hieróglifos mais antigos. Então se falava muita besteira a respeito de medo de morcegos, etc, a despeito do fato dos ameríndios encararem o flagelo como algo essencialmente positivo. Não há rancor contra os animais de Xibalba. Tanto que o morcego nomeou o clã Zotzil, de origem Kakchiquel (Chiapas, México) e tornou-se o emblema da dinastia Copán (Honduras, 436-822 d.C) em cujo sítio arqueológico se eleva uma construção ornada com magníficas esculturas de morcegos com vestes suntuosas. Inclusive, hoje é sabido que na língua maia um mesmo hieróglifo pode significar uma palavra completa ou só uma sílaba, dependendo do contexto onde esteja inserido.

Um dos signos, que representa a cabeça de um morcego, se traduz em maia como zotz, ou seja, a palavra que denomina este animal; mas também pode ser a sílaba fonética tz-i, presente em numerosas palavras nessa língua.[24]

A Casa do Morcego guarda certa semelhança com a Casa da Faca (Chayim Haa) repleta de lâminas enfileiradas “que se chocam umas contra as outras”[25] pois, de acordo com Eduard Seler, entre os mexicanos o morcego é divindade de morte; associam-no ao ponto cardeal Norte e, muitas vezes, o representam com uma mandíbula aberta que, outras vezes, é substituída por uma faca sacrifical.[26] Segundo Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, os maias denominavam o morcego “aquele que arranca as cabeças” e “representam-no com olhos de morto”.[27]

Seriam morcegos verdadeiros ou pessoas vestidas como morcegos? Em pinturas maias vemos Morcegos da Morte (kama zotz’) soltando baforadas de tabaco. Nos sítios arqueológicos foram encontrados sapatos imitando pés de morcego. Em várias pinturas e esculturas vemos morcegos vestidos como gente e gente vestida como morcego. Às vezes o traje inclui asas coloridas e, às vezes, só a máscara. Portanto certamente havia quem se vestisse de morcego… Por outro lado, não há coisa mais fácil que encontrar uma caverna cheia de quirópteros onde os jogadores pudessem pernoitar e até correr perigo real devido à possibilidade de morrer sufocado pela exalação de amônia das fezes e urina acumulada se a profundidade da caverna e concentração de morcegos for expressiva.

3. — Os gêmeos mágicos Hun Ah Pu e X Balam Ke não se intimidaram com a escuridão, sobreviveram ao fogo, subornaram as facas e desviaram a atenção dos jaguares jogando-lhes ossos, mas os morcegos da Zotzi Haa eram incorruptíveis. Para pernoitar na Casa dos Morcegos sem serem comidos eles tiveram de reduzir de tamanho e esconder-se dentro de uma zarabatana. Foi então que os morcegos tramaram uma trapaça. Passaram horas esvoaçando ao redor e guinchando sem parar. Depois ficaram subitamente quietos e silenciosos para que os gêmeos pensassem que já era dia e saíssem do impenetrável esconderijo.

Chiri q’ut x ki ya vi k ib hun vi
R umal hun chi kama zotz’
Chi qah
X pe vi
Xá vi ‘u k’utubal r ib


E foi aqui que um deles se rendeu
Por causa de um Morcego da Morte
Que então desceu.
Ele veio justo
Quando um deles se expôs, quando eles agiram.[28]


Ka r ah r il ulok u zaqirik.
Kate puch ta x kupix u holom r umal kama zotz’.
K u pul chi kan ok u nimal ri Hu Ah Pu huch’alik.


Ele tentou olhar para fora para ver se havia amanhecido.
E então sua cabeça foi agarrada por um Morcego da Morte.
O corpo de Hun Ah Pu ficou preso, sem cabeça.
[29]

Essa história acaba bem porque Hun Ah Pu possui a capacidade de rejuntar partes perdidas como uma boneca Bárbie que perdeu sua cabeça, bastando para isso que alguém a encontre e recoloque encima de seu pescoço. Quanto aos humanos verdadeiros que tiveram como destino a decapitação, acreditava-se que suas faces seriam ressuscitadas de novo (k’azitah ki vach) desde que deixassem prole, pois os filhos são a continuação da vida dos pais.
O momento final onde Hun Ah Pu e X Balam Ke fingem submissão para escapar do sacrifício aparece numa cerâmica do período clássico tardio (550-850 d.C.), descoberta na Guatemala, em cujo centro vemos um morcego de asas abertas, ostentando colar e cinto decorados com olhos humanos. Os gêmeos estão agachados na borda, subjugados pelo Morcego da Morte.[30]
Informes relativamente recentes ainda preservam vestígios dos velhos ritos tribais revistos e atualizados. Por exemplo, Tatiana Firmino – uma amiga brasileira que estava a par do meu interesse em lendas urbanas sobre morcegos – falou-me, em 2002, sobre uma reportagem do Programa do Ratinho, exibida no canal de rede aberta SBT (Sistema Brasileiro de Televisão) a qual ela teria assistido como telespectadora. Nesta ocasião o apresentador Carlos Roberto Massa teria exibido vídeos dos ritos secretos de uma seita – “Não-sei-o-que do Amanhã” – que atuava em Pelotas, RS, reunindo cerca de 180 membros. Os ritos consistiam num prólogo padronizado seguido de um desfecho mutável. Na primeira parte o grupo balança levemente “de um lado para outro” o ser humano a ser oferecido como sacrifício até fazê-lo entrar em estado letárgico. A seguir falam que seu sangue está fervendo. Suas veias “vão estufando” visivelmente por causa da sugestão hipnótica até deformar-lhe o corpo. Daí em diante a conduta varia.

À vítima do primeiro sacrifício ordenaram que cortasse suas próprias veias infladas para os adeptos beberem o sangue. À vítima do segundo sacrifício mandaram entrar numa gaiola cheia de morcegos-vampiro famintos, que atacaram imediatamente. O último ritual foi interrompido pela polícia, chamada por denúncia anônima. Todos foram presos em flagrante delito e o VHS apreendido como meio de prova foi parar nas mãos da produção daquele programa.[31]

4.

Uma das esculturas de Morcego com adornos humanos que decoram uma
construção erigida pela dinastia Copán (Honduras, 436-822 d.C).

Quase todo comentador da arte maia afirma que Zotz é um deus e não um interventor genérico, além de totem particular de certas facções. Afinal, havia um morcego supremo que justifique o rótulo de divindade? Creio que não. Só quem já estudou desenho conhece a dificuldade de pintar um enxame de insetos, manada de herbívoros ou revoada de morcegos. É muito mais cômodo destacar um ou dois animais do bando para trabalhar detalhes em peças pequenas, como as cerâmicas funerárias maias. Ademais, o Popol Vuh utiliza um recurso literário onde toda uma espécie pode ser reduzida a um único animal e novamente desdobrada. Por exemplo, quando os mágicos entraram numa rixa contra os animais eles rasgaram os rabos do coelho e do veado. “Foi o que encurtou o rabo deles”. Depois capturaram o rato e queimaram seu rabo. “Por isso se alguém pega um rabo de rato vê que o rabo não tem pêlos”.[32] O mocho-orelhudo também foi punido após falhar em sua missão de guardar as flores do jardim de Hun Kame e Vucub Kame. Por causa disso os bicos dos mochos “são fendidos até os dias de hoje”.[33]
Em todos estes casos é a representação metafórica do animal ideal quem sofre o dano capaz de afetar a espécie. É por isso que certas pinturas e esculturas destacam um único morcego que não representa o bando, mas é o próprio bando compactado na unidade. E se às vezes o animal parece gigante é porque o homem usou magia para encolher e esconder na zarabatana. Portanto não condiz com o contexto criar um morcego-deus. Conforme exposto, eu particularmente considero a tradução de Gordon Brotherston e Sérgio Medeiros como sendo a mais correta disponível no mercado atualmente. Eles entendem kama zotz como a coletividade de Morcegos da Morte e não como um morcego-rei que comanda os demais quirópteros na Zotizi Haa mesmo porque não existe um jaguar-mestre na Casa do Jaguar, nem uma faca-mor na Casa das Facas.

Apesar de tudo existem traduções alternativas para a descrição da Casa dos Morcegos no Popoh Vuh, parte II, capítulo 10, como a de Delia Gotz e Sylvanus Griswold Morley que a seguir passo a expor:

There was nothing but bats inside this house,
the house of Camazotz,
a large animal, whose weapons for killing were like a dry point,
and instantly those who came into their presence perished.[34]


Não havia nada além de morcegos dentro desta casa,
a casa de Camazotz,
um grande animal
cujas armas para matar são como uma ponta seca,
e aqueles que iam à sua presença morriam instantaneamente
.

Delia e Sylvanus explicam que o termo traduzido por “ponta seca” (Chaqui tzam) pode ser entendido como referência à “lança queimada, endurecida no fogo”.[35] Em nota, acrescentam que “o deus morcego-vampiro dos códices aparece com uma faca sacrifical numa mão e sua vítima em outra”.[36] O antropólogo Gordon Melton concorda que Hun Ah Pu e X Balam Ke “são atacados inicialmente por uma horda de morcegos e depois pelo próprio Camazotz” definido como “o feroz deus das cavernas do submundo maia”.

Camazotz, com seu nariz afiado, grandes dentes e patas era uma figura popularmente temida entre os maias e numerosas representações aparecem na arte desse povo… Era também temido, sedento de sangue e deus das cavernas. As pessoas evitavam passar pelos lugares que acreditavam ser sua morada.[37]

Mattew Bunson, autor da The Vampire Encyclopedia, afirma que os maias adoravam um deus-morcego, sendo que “posteriormente Zotzilaha foi adotado pelos Astecas, que incorporaram muitos de seus atributos em sua divindade Huitzilopochtli”.[38] Martin Cruz Smith escreveu numa obra de ficção:

No Novo Mundo, o morcego era Deus. Seu nome maia era Zotzilaha. Inúmeras cidades e pessoas traziam seu nome e através de todo o México existiam templos com sua imagem: Um homem de pernas separadas, com asas, cara, dentes e língua de morcego, segurando uma cabeça humana numa das mãos e um coração na outra. Zotzilaha, o deus morcego que controlava o fogo, foi transformado pelos astecas no deus sol, Huitzilopochtli, que exigia altares de sacrifícios de corações humanos arrancados por sacerdotes adornados com capas de pele de morcego.[39]

Discordo parcialmente de todos esses autores. Antes da decifração dos hieróglifos e da descoberta de partes imputrescíveis de vestes em túmulos maias a totalidade dos historiadores e antropólogos sustentava que todos os híbridos humano-animal vistos nos códices eram deuses ou demônios. Hoje sabemos que são cenas da vida quotidiana representando cidadãos mascarados (biinahik) em seus trajes típicos. Logo, quem aparece com mãos humanas, conversando com outros índios ou segurando objetos é simplesmente gente. E quando há a pretensão de representar morcegos eles são morcegos de fato.

Também não é verdade que Camazot seja um dos Senhores de Xibalba segundo o Popol Vuh. Um capítulo desta obra contém uma explanação exaustiva de como Hun Ah Pu e X Balam Ke descobriram os nomes dos doze governantes que são chamados Hun Kame, Vuqub Kame, Kikiri Pat, Kuchuma Kiq, Ahal Puh, Ahal Qana, Chamiya Baq, Chamiya Holom, Kik, Patan, Kiq r E e Kir r Ix Kaq. Ou seja, nenhum Camazot. O morcego (Zotz) também não é um mensageiro como a coruja (Tukur) que goza de posição privilegiada na hierarquia dos animais subordinados aos deuses do submundo. Não há indícios de que eles sejam sequer animais mágicos (navinak). Então porque ocupam uma posição tão importante?

O homem moderno não é capaz de entender que os jaguares e desmodontídeos exerciam fascínio sobre os índios apenas porque eles eram jaguares e desmodontídeos. O jaguar é animal carnívoro que dispensa qualquer outro alimento que não seja o sacrifício sangrento. O vampiro é hematófago, ainda mais especializado. Eles pareciam estar acima da condição onívora humana. Não são deuses nem fantasmas. São melhores que isso porque são reais, estão vivos e podem ser vistos, sentidos, tocados. São de verdade. São seus vizinhos.

Notas:

[1] Existem citações antigas de que indígenas da atual Paraíba, descobertos pelos jesuítas no final do século 16, utilizavam em seus rituais livros feitos por eles, com a casca de uma determinada árvore da região. Segundo os jesuítas, os caracteres teriam sido ensinados pelo Diabo, e por tal motivo aqueles religiosos cuidaram de destruir os livros malditos, bem como coibiram a difusão do conhecimento ali contido. Esta tradição foi recolhida por diversos autores, sendo citada na obra do historiador inglês Robert Southey (ver História do Brasil. Melhoramentos, 1977, pág. 253). Ainda sobre este assunto o padre Simão de Vasconcelos, no livro Crônica da Companhia de Jesus, edição de 1663, cita que na Paraíba existia uma forma de escrita muito antiga, e que diversas palavras estavam gravadas em um penedo, na entrada da Cidade da Paraíba. Segundo aquele autor, os índios tinham feito tais inscrições por “inspiração demoníaca”.


[2] MIGUEL, Sylvia. A vida na Amazônia pré-colonial. Em: Jornal da USP, 24 a 30 de abril de 2006, ano XXI, nº 760.


[3] CHEVALIER, Jean e GHEERBRANT, Ala

in. Dicionário de Símbolos. Trd. Vera da Costa e Silva, Raul de Sá Barbosa, Angela Melim, Lúcia Melim. Rio de Janeiro, José Olympio, 1999, p 620-621.


[4] Revista Homem Mito e Magia – fascículo 6. Ed. Três – São Paulo – 1973.


[5] MICHAELA, Juliana. Museu irá expor esqueleto de suposto extraterrestre. In: Terra Notícias. 24/11/2007, 13h51.


[6] BERNARD, Raymond. A Terra Oca: A descoberta de um mundo oculto. Trd. Homero Diniz Freitas. Rio de Janeiro, Nova Era, 1999, p 219.


[7] BERNARD, Raymond. Op Cit, p 219.


[8] BERNARD, Raymond. A Terra Oca: A descoberta de um mundo oculto. Trd. Homero Diniz Freitas. Rio de Janeiro, Nova Era, 1999, p 220.


[9] BERNARD, Raymond. A Terra Oca: A descoberta de um mundo oculto. Trd. Homero Diniz Freitas. Rio de Janeiro, Nova Era, 1999, p 220-221.


[10] OLIVEIRA, C. E. Os Apinajés do Alto Tocantins. In: Boletim do Museu Nacional, nº 2, 1930, p 91-92.


[11] SILVA, Alberto da Costa e. Antologia de Lendas do Índio Brasileiro. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura, 1957, p 215-216.


[12] OLIVEIRA, Carlos Estêvam. Os Apinajés do Alto Tocantins. Em: Op cit, p 91-92.


[13] SILVA, Alberto da Costa e. Op cit, p 216.


[14] SILVA, Alberto da Costa e. Op cit, p 216.


[15] SILVA, Alberto da Costa e. Op cit, p 216.


[16] OLIVEIRA, Carlos Estêvam. Os Apinajés do Alto Tocantins. Em: Op cit, p 91-92.


[17] BROTHERSTON, Gordon e MEDEIROS, Sérgio (organizadores). Popol Vuh. São Paulo, Iluminuras, 2007, p 37.


[18] MELTON, J. Gordon. O Livro dos Vampiros: A enciclopédia dos Mortos-Vivos. Trd. James F. Sunderlank Cook. São Paulo, Makron Books, 1995, 534.


[19] TIERNEY, Patrick. O Altar Supremo: Uma história do sacrifício humano. Trd. Dílson Bento de Faria Ferreira Lima. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil,1993, p 27.

[20] COE, Michael, SNOW, Dean e BENSON, Elizabeth. A América Antiga: Civilizações pré-colombianas. Vol. I. Madrid, Edições Del Prado, dezembro de 1996, p 108.


[21] COE, Michael, SNOW, Dean e BENSON, Elizabeth. Op Cit, p 108.


[22] BROTHERSTON, Gordon e MEDEIROS, Sérgio (org). Popol Vuh. São Paulo, Iluminuras, 2007, p 140-141.


[23] BROTHERSTON, Gordon e MEDEIROS, Sérgio (org). Op Cit, p 224-225.


[24] FRANÇA, Sérgio (ed). Finalmente decifrados os hieróglifos maias. In: Incrível, nº 1. São Paulo, Bloch, julho 1992, p 23.


[25] BROTHERSTON, Gordon e MEDEIROS, Sérgio (org). Op Cit, p 141.


[26] SELER, Eduard. The Bat God of the Maya Race. In: Bureal of American ethnology, Bulletin 28, Washington, Smithsonian Institution, 1904, p 233.


[27] CHEVALIER, Jean e GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. Trd. Vera da Costa e Silva, Raul de Sá Barbosa, Angela Melim, Lúcia Melim. Rio de Janeiro, José Olympio, 1999, p. 620.


[28] BROTHERSTON, Gordon e MEDEIROS, Sérgio (organizadores). Popol Vuh. São Paulo, Iluminuras, 2007, p 224-225.


[29] BROTHERSTON, Gordon e MEDEIROS, Sérgio (organizadores). Op Cit., p 226-227.


[30] Trata-se de um copo com três suportes ocos contendo bolinhas que chocalham quando movido. Sua parte externa foi pintada nas cores e forma de uma pele de jaguar, contendo um ser sobrenatural de Xibalbá chamado K’in Balam (Doado por Mr. Hamilton C. Forman; 1982.41.4).


[31] Esta narrativa pode não ser baseada num caso concreto real. Desde a época em que era exibido na TV Record sob o nome Ratinho Livre, o programa do apresentador Carlos Roberto Massa já era conhecido como o mais sensacionalista dos telejornais brasileiros. Quando migrou para o SBT modificou apenas superficialmente sua orientação anteriormente devotada ao público evangélico.


[32] BROTHERSTON, Gordon e MEDEIROS, Sérgio (organizadores). Op Cit., p 185.


[33] BROTHERSTON, Gordon e MEDEIROS, Sérgio (organizadores). Op Cit., p 221.


[34] GOTZ, Delia e MORLEY, Sylvanus Griswold. The Book of the People: Popol Vuh; The National Book of the Ancient Quiche Maya. EUA, Limited Editions Club, 1954, p 86.


[35] GOTZ, Delia and MORLEY, Sylvanus Griswold. Op Cit, p 86, nota 3.


[36] GOTZ, Delia and MORLEY, Sylvanus Griswold. Op Cit, p 86, nota 2.


[37] MELTON, J. Gordon. O Livro dos Vampiros: A enciclopédia dos Mortos-Vivos. Trd. James F. Sunderlank Cook. São Paulo, Makron Books, 1995, 534.


[38] BUNSON, Matthew. The Vampire Encyclopedia. New York. Three Rivers Press, 1993, p 172.


[39] SMITH, Martin Cruz. Terrores da Noite. Trd. Edna Pacheco Fernandes. São Paulo, Nova Cultural, 1986, p 55-56.

Texto reproduzido com a autorização da autora.

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