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VampirosNaIrlanda

Drácula era um irlandês viciado em sangue?

Drácula era um irlandês viciado em sangue? Ao menos poderia ter sido, segundo o Bob Curran, especialista em Folclore e História Celta, publicado em Colina (Irlanda do Norte), Universidade de Ulster. Alguns podem argumentar que isso se deve ao fato de Bran Stoker, nascido em Dublin e autor do romance Drácula ser irlandês. Embora Bran nunca tenha tido tendências sanguinárias. Ainda assim, o pensamento de Curran sobre Drácula ter sido um irlandês viciado em sangue é interessante e rodeado de coincidências ao menos para nós que não falamos gaélico ou inglês arcaico, devo admitir. Mas será que isso é verdade mesmo ou apenas uma mera sugestão acadêmica pautada em fantasmas semânticos?

Sabemos como o Castelo de Sláin, na Escócia e sua câmara octogonal provocaram admiração em Bran durante suas viagem por lá e serviram de inspiração para o mítico castelo de Drácula no seu romances. Inclusive graças a pesquisa de Hans de Roos e Bran Stoker sabemos aonde Bran imaginou o tal castelo. Também é do nosso conhecimento como Bran cresceu ouvindo a respeito de mitos irlandeses e celtas contados por sua mãe durante uma doença difícil ainda na infância.

E isso ainda sem mencionarmos nossas entrevistas e conversas com Dacre Stoker os conteúdos incríveis que ele compartilhou, algo inédito ainda no mercado literário nacional.

Se bem que já vivemos tempos que se especula que o romance Dracula inclusive tivesse uma versão ampliada na Suécia, chamada Poderes das Trevas...

Enfim, ainda que um pouco fora de moda, neste artigo vamos tentar responder: Drácula era um irlandês viciado em sangue?

A obra Drácula foi originalmente publicado em 1897 por Stoker e neste ano celebra seu aniversário de 125 anos, durante os festejos do World Dracula Day. Uma data especial, quem fala dela é nossa correspondente Nix Bizhar da Via Escarlate, que celebra a publicação e a amplitude da obra de Stoker na cultura pop, realizamos o aniversário de 120 anos junto com os parceiros do Escape Hotel, vem lembrar dela aqui. Aliás falando em Drácula e Vlad III a edição de estréia da Strigoi Revista Rede Vamp oferece visões interessantíssimas sobre ambos pautadas em pesquisa de campo e fontes primárias realizadas por Dacre Stoker, Hans de Roos e ainda uma visão da origem dos vampiros no Império Otomano.

Mas vamos a nossa história de hoje. Conheçam Bob Curran.

Bob Curran, professor da Coleraine University

Bob Curran, professor da Coleraine University em Ulstead, estima que o escritor Bran Stoker foi inspirado por um chefe tribal chamado Abatach no Condado de Londonderry, na Irlanda do Norte – para criar seu personagem Drácula.

Bob especula em seu trabalho como Bran pode ter sido influenciado pelo folclore irlandês sobre vampiros chamados “dearg-diúlaí, bastante difundidos no imaginário da Irlanda.

Em sua tese Bob menciona vários exemplos de vampiros irlandeses, mas a história do vampiro chamado Abhartach, um lendário chefe local dos séculos V ou VI dC na área de Glenullin de Derry (Co), é contada em muitos detalhes interessantíssimos. O local de sua sepultura (Leacht Abhartach) deu nome à cidade Slaughtaverty no sepulcro do maldito há uma grande laje de pedra e um espinheiro. O túmulo de Abhartach é agora conhecido como Slaghtaverty Dolmen, os populares o chamam de “O Túmulo do Gigante”. O dólmen está localizado na cidade de Slaghtaverty (em irlandês : Sleacht Aibheartaigh ), ao norte de Maghera , no condado de Londonderry , Irlanda do Norte.

Vampires: A Field Guide to the Creatures That Stalk the Night de Bob Curran

De acordo com o folclore romeno, o homem, conhecido como Vlad III da Casa Besarabi (Vlad Tepes para a história), era um tirano que bebia sangue humano viciado. Curran aponta que em gaélico (o dialeto celta da Irlanda e da Escócia), a palavra “sangue viciado” é soletrada “droch fhoula” e pronunciada “droc’ola”, que para Bob é a origem do nome Drácula usado por Stoker. Ainda em 2021 Abhartach inspirou o antagonista do filme irlandês de 2021 Boys from County Hell. Lá ele é retratado como uma figura alta de vampiro que pode drenar o sangue das pessoas apenas por estar perto delas e que foi famosamente derrotado pelo chefe Ó Catháin .

Boys from County Hell

No entanto, em 1998, a professora Elizabeth Miller publicou um artigo em seu livro Dracula in Shades and Shadows que desafiava esse conceito, observando que Stoker tinha suas notas de pesquisa que não indicam que ele tinha conhecimento biográfico de Vlad III. Ela explicou que enquanto Stoker copiou algumas referências à paternidade de Vlad III, sua oposição aos turcos e seu irmão traidor de William Wilkinson’s Chronicle of the Duchy of Wallachia and Moldavia (Radu III, erroneamente chamado de “Bladus” por Wilkinson), na época 1988 inexistiria mais evidências para uma associação entre ambos. Mais de três décadas depois essa observação da autora foi posteriormente esclarecida em outras obras, entrevistas e também por seus colaboradores. Inclusive em nossas conversas com o pesquisador e escritor Dacre Stoker ele menciona o processo criativo de Bran com amplo detalhamento e documentação:

Conferimos acima duas conversas incríveis com o pesquisador Dacre Stoker, sobrinho bisneto de Bran Stoker e executor do seu legado literário; inclusive ele foi colaborador de Elizabeth Miller posteriormente. Mas agora vamos voltar a história deste “post”.

De acordo com o professor Bob Curran, Abhattah se levantou de seu túmulo e exigiu um copo de sangue de suas vítimas. Bob Curran esclareceu que ele não poderia ser morto, mas ele teve que ser enterrado no subsolo e esmagado por uma grande pedra depois de ser perfurado por uma espada de madeira. Eu diria uma estaca, mas enfim irlandeses são irlandeses. Foi o que vemos na edição de verão de 2000 da History Ireland , um jornal revisado por pares editado por historiadores, onde Bob sugeriu que Stoker pode ter derivado sua inspiração da lenda de Abhartach. Curran também é o autor de Vampires: A Field Guide to the Creatures That Stalk the Night (2005), que relata uma versão mais detalhada da lenda do que a coletada por Weston. Enfim, concluímos que apenas mais um vampiro na região da Irlanda foi localizado.

Fato é que Abhartach ( pronunciado [??u??t???x] ; irlandês para ‘anão’), também Avartagh , é uma lenda irlandesa antiga , que foi coletada pela primeira vez em The Origin and History of Irish Names of Places (1870) , de Patrick Weston Joyce . Abhartach não deve ser confundido com o semelhante chamado Abartach , uma figura associada a Fionn mac Cumhaill. Gigante? Anão? Vampiro? Não sei, mas a indústria do turismo desde as fogueiras espanholas a suas versões mais recentes vampíricas sempre demanda clientela e nicho de público. Encerro, citando outro Joyce, não aquele que incluiu um vampiro como metamorfose do protagonista no capitulo 5 de Finnegan´s Wake:

Há um lugar na paróquia de Errigal em Londonderry, chamado Slaghtaverty, mas deveria ter sido chamado Laghtaverty, o monumento laght ou sepulcral do abhartach [avartagh] ou anão. Este anão era um mago e um terrível tirano, e depois de ter perpetrado grandes crueldades contra o povo, ele foi finalmente vencido e morto por um chefe vizinho; alguns dizem por Fionn Mac Cumhail. Ele foi enterrado em pé, mas no dia seguinte ele apareceu em seu antigo refúgio, mais cruel e vigoroso do que nunca. E o chefe o matou pela segunda vez e o enterrou como antes, mas novamente ele escapou da sepultura e espalhou terror por todo o país. O chefe então consultou um druida e, de acordo com suas instruções, matou o anão pela terceira vez e o enterrou no mesmo lugar, com a cabeça para baixo; que subjugou seu poder mágico, de modo que ele nunca mais apareceu na terra. A claridade levantada sobre o anão ainda está lá, e você pode ouvir a lenda com muitos detalhes dos nativos do lugar, um dos quais me contou.

— Joyce, The Origin and History of Irish Names of Places

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