Diálogos e alfabetos sentientes: Hereditária e a Chegada

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Diálogos e alfabetos sentientes: Hereditária e a Chegada

Nossos finais de semana costumam ser agitados sendo muitas vezes tomados pela produção dos nossos eventos como o FANGXTASY, CARMILLA ou até um PASSEIO DE LIMOUSINE. Outras vezes, na maioria delas são os ritos e atividades do CÍRCULO STRIGOI e as palestras e conferências que participo por aí.  No sábado 29 de Outubro conduzi uma atividade muito bacana no sensacional PAGÃOS PELA TERRA produzido pelo IMG Instituyo Mãe Terra, lá em Taubaté (bem próximo da Serra da Mantiqueira); tal viagem ganhará uma artigo próprio aqui também. No domingo seguinte foi nosso dia de folga, precisamos desse tempo estirados no futon e abraçados com nossas 4 gatinhas que convivem com a gente na VAMP TOWER.

Assistimos os filmes “Hereditário (Hereditary,2018)” e também “A Chegada (The Arrival, 2016) de um jeito ou de outro ambos falam sobre a vinda do inefável de uma outra dimensão para a nossa, no final das contas. Também mostram o diálogo e a condução dos eventos neste sentido onde os protagonistas são movidos por seres que se utilizam de eventos e de cargas das suas vidas interiores. O que lança contemplações interessantíssimas no eterno diálogo do livre arbítrio versus as limitações do mapa/túnel de realidade de cada um – ou simplemente sobre compreensão e o que enxerga/percebe do que acontece ao redor e como dialoga com isso. A “Chegada” trata em partes sobre gravidez e o que será de uma criança, teríamos filhos se conhecessemos o destino deles? Enquanto “Hereditária” é sobre o que transmitimos e os processos de luto e de perda que vem de planos e padrões exteriores e incontroláveis. 

Os dois filmes acabaram sendo indicações de grandes amigos “A Chegada” veio do casal Thomas Karlsson (Autor de Uthark Lado Noturno das Runas, leia mais aqui) e Daiana Isis, lá da Suécia – e que em novembro vamos encontrar pessoalmente no mega evento da Penumbra Livros na sexta 9 de Novembro. Aliás não deixe de ler nossa entrevista com o Doutor Thomas, aqui  Aliás daqui a pouco vamos falar mais sobre este filme.

“Hereditária” foi uma indicação do escritor Damien Vorhess do Blog Arauto do Caos. Se não fosse por algumas dicas do roteiro dadas por ele, teria desistido nos primeiros trinta minutos. Superada a primeira hora de dramão familiar do hereditário ele se desvela complexo e impactante, com toques de Goetia, sociedades satânicas e como os vivos são (e sempre serão) muito piores que qualquer demônio. Não é um filme de pular na cadeira é terror psicológico que vai aumentando a pressão e a tensão mais e mais – e a redenção vinda do final confirma o título… aliás o grande ponto do filme é encarnar uma deidade neste mundo e há um projeto familiar neste sentido – interpretado inicialmente como esquizofrenia pelos personagens, até uma primeira quebra de realidade que envolve um “cadinho” de jogo do copo e a boa e velha feitiçaria. Por isso que levam quase uma hora apresentando os personagens e alquimicamente escurecendo mais e mais cada um e o que vai ocorrendo ao redor.

A pegada das maquetes e dos personagens transmite que todos são parte de um plano e a mercê de um destino para lá de funesto. Isso é reforçado pelas aulas dos professores de literatura na escola – sobre o destino irreversível e fatal. Achei o clima tão bacana quanto The Neon Demon e também A Dark Song (Que aliás trata sobre Abramelim, Enoquiano e SAG). Em “Hereditária” é a vez de um daemon goético, dar as caras e de agregar valor e charme singular ao roteiro. E surpreender, bem como as referências discretas visuais e nos diálogos e posturas a sua presença ao longo da trama.

Deixando a escuridão e vastidão telúrica no filme “A Chegada” vemos o inefável vir do além, do sideral ou das outras dimensões. Enquanto assistia não conseguia deixar de me recordar do nostálgico “Contato (Contact, 1997) e dialogar com meu self daquele tempo. Aliás a grande pegada de “A Chegada” é exatamente esta a memória não está vinculada ao tempo e por meio dos símbolos (glifos ou sigílos) apropriados a protagonista vivencia esta sublime realidade ao encontrar os seres dos outros mundos (que vieram em naves espaciais nas fomas de conchas – o que é significativo pensando em suas formas tentaculares) e o clima chuvoso, enevoado, túnel escuro, luz no final do corredor, névoa, sombras e espelhos é majestoso e fascinante. Seu idioma com glifos círculares (oroboros alquímico ou Oro,Adulrúnico) por toda parte) e o que parecem sons, uivos, rosnados e grunhidos – suas palavras e símbolos evocam como o idioma ou a língua falada moldam pensamentos e percepções dos ouvintes, conforme se estabelece o diálogo – articulando uma velha tese linguística de Sapir e Whorf. Aprender tal língua e iniciar o diálogo com os aliens (humanos e ets não falavam a mesma língua) a faz perceber e ver o mundo como eles, neste caso principalmente o tempo, como este é fluído e não linear. Cada um assimila a compreensão e a vivência ou experiência disso a sua maneira. O foco dado ao tempo no filme marca bem isso. Tal experiência expande a consciência da protagonista.

Para quem está lendo meu #CODEXSTRIGOI Volume 4 é um prato cheio de reflexão neste sentido. Para quem aprecia os alfabetos sentientes, tarô, runas (ou ainda Adulrunas) e oráculos o filme é um prato cheio para especulações e boas jornadas.

E para quem esteve na minha palestra/atividade no evento Pagãos pela Terra – PPT no Instituto Mãe Terra do sábado, fica como atividade extracurricular assistir ambos os filmes e divirtam-se tecendo referências que aprenderam na palestra sobre os alfabetos sentientes e os diálogos que mediam entre o que lhe é claro ou difuso em suas jornadas de vida.

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