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Anne Rice

ADEUS ANNE RICE (1941-2021)

ADEUS ANNE RICE (1941-2021) e talvez essa seja uma das notícias mais tristes que publicamos ao longo dessas duas décadas de atividades da Rede Vamp/Rede Vampyrica.

Em nossas páginas ela era conhecia como a “Grand Dame de New Orleans” e lá no âmago estava suas crônicas vampirescas. Vamos aos fatos ela faleceu por conta de um AVC neste sábado 11 de Dezembro encerrando um universo literário com mais de 30 livros e uma adaptação cinematográfica de peso do clássico “Entrevista com o Vampiro” que lá nos anos noventa contou com alguns dos maiores nomes de Holywood. No Brasil o livro homônimo foi inclusive traduzido por Clarice Lispector.

Adeus Anne Rice
Adeus Anne Rice

A ESCRITORA E SUA OBRA

Anne Rice iniciou sua carreira de escritora como uma maneira de lidar com o luto pela morte da filha Michelle (com 5 anos) e assim vieram personagens icônicos como Lestat, Claudia, Louie, Armand, Marius, Pandora, Akasha e muitos muitos outros. Foram mais de 30 livros em sua carreira. Ativa até o momento derradeiro manteve uma página de fãs no Facebook com mais de um milhão de seguidores onde falava de seus livros, estimulava a leitura e o livre pensamento. Atualmente seu filho Cristopher é o herdeiro de seu legado literário e o responsável pelo que virá das Crônicas Vampirescas.

ANNE RICE E A REDE VAMP

Só conversei com Anne Rice bem esporadicamente e por rede social. Planos de uma entrevista que nunca se consumiu por conta das agendas. E um agradecimento dela quando fiz uma colagem digital de como ficaria um certo ator norte americano como Lestat. Também houve uma menção gentil dela quando encenamos Lestat e Akasha na Fangxtasy do Poison Bar e Balada sendo que no dia seguinte ela anunciou o retorno do personagem a uma nova fase das Crônicas Vampirescas. Devo dizer esse vampiro sempre foi o meu santo padroeiro particular. Em certos dilemas pensava: o que Lestat me diria ou faria. Quem nunca, afinal? Lembranças boas de uma juventude literária bem vivida e de ter acesso as obras de Anne Rice tão cedo. Seus leitores formavam uma augusta e secreta confraria naqueles tempos. Homenageei isto num dos apêndices do meu livro Deus é um Dragão (Penumbra Livros, 2019)

Nas suas páginas Anne ensinava como o vento noturno no cabelo revivia alguém de todas as suas mágoas. O prazer de se andar com um sobretudo de veludo por uma larga avenida em noites frias sob o mesmo vento. E a maneira como ela fazia isso era cinematográfica. Suas sentenças tinham sabores, aromas e uma vitalidade deliciosa. Seus imortais eram seletos, história da arte, literatura e a história das eras vividas por seus filhos e filhas dos milênios eram uma benção. Rembrandt nunca mais foi o mesmo depois dela.

Eram os livros dela que me inspiravam a andar em lugares ermos, velhos cemitérios, ruas com velhos casarões e sentir o aroma da dama da noite. Imaginar New Orleans e descer junto ao rio. Ficar com meu sketchbook desenhando a fachada da mansão Hasbaya e tantos outros lugares ermos ainda no comecinho dos anos noventa. Relembre Anne Rice.

O QUE APRENDEMOS LENDO ANNE RICE

Seus escritos ensinavam que da morte vinha uma força inenarrável que ajudava a caminhar e permanecer de pé e firme através da vida e suas atribulações. Seus vampiros tinham aversão a condição brega e empobrecida de servos de satã num cristianismo inverso vivendo debaixo de tumbas cheias de lama e distantes da beleza de Notre Damme. Talvez um dos trechos mais icônicos do livro “Vampiro Lestat” quando o protagonista transitava pelo luxo, a beleza e a vida sendo quem era um vampiro. E o mais interessante como assim despedaça o velho covil oculto sob o cemitério. Há mais sob a noite do que apenas a luz das estrelas.

E eu adoro até hoje este esnobismo realmente predatorial dos vampiros de Anne Rice. A vida sem beleza é sem magia e só um cadáver ressentido.
Esperando de óculos escuro pelo apocalipse para tudo acabar e assim justificar sua existência miserável.

A autora de New Orleans sabia como ninguém inserir o desejo e a libido. Mas se engana quem tentar reduzir isso apenas a atos friccionais entre corpos. Era algo muito mais vasto e fascinante. Luxurioso no sentido mais dignificante cabível ao termo. Ela sabia nas suas páginas como se render a estranhas obsessões e transformar em arte escrita. Uma evocadora de imagens. Uma educação muito particular para todos nós que partilhávamos deste tom “Vamp” na vida.

Provavelmente foi por isso que durante as duas últimas décadas suas obras já não reverberavam tanto junto do público como no passado. Visto que desejo ou libido se tornaram algo quase patológico mascarado como ansiedade. O que apenas confirma que tal “desejo” não adianta canalizar, enterrar ou esconder que permanece. Há algo em comum entre Vampiros e o Desejo, desvincular isso é amadorismo ou fundamentalismo brega e barato de gente ressentida e que não consegue lidar com o “desejo” ou ser “desejado” que implica aceitarem a própria insuficiência e que não estão com essa bola toda. Mas numa era onde o poder é esconder o que sente numa narrativa que estreita todo e qualquer afeto para justificar a vontade de destruir o que lhe parece melhor. Não se pode esperar muita coisa. É bem ai que entram os zumbis sempre em moda hoje em dia. E porque qualquer adaptação audio visual da grand dame de New Orleans devem esperar por tempos mais prósperos.

Quando vivemos em épocas que as pessoas não suportam a inconstância e o indomável desejar ou ser desejado e fogem disso rebaixando tudo a “construções sociais”, “narrativas” e ideologias disso e aquilo para NÃO o sentirem porque não aguentam temos a prevalência de zumbis como de The Walking Dead no imaginário do povo. Hordas de seres descerebrados devorando cérebros alheios, devorando tudo que vem pela frente servindo quem quer as chaves do arsenal, da prisão e do palácio – que depois eliminará as decrépitas carcaças fedorentas usadas para tal fim.

Anne Rice sabia como ninguém que desejo e libido são um problema quando se realizam ou ainda quando não se realizam – essa tensão divina que mantem o fluxo da vida e do “Sangue” – e projetava isso para os milênios de muitos de seus personagens com propriedade e riqueza. Sheridan Le Fannu e Coleridge sabia como tal força era sufocante em seus escritos porém o empenho maior era vencer tamanho empuxo e ressurgir. Hoje em dia apenas se enterra e soterra tais coisas maniacamente e se olha compulsivamente para seu oposto tornando-as o monstro embaixo da cama que não pode vir a tona a qualquer custo em nome disso, daquilo ou daquele outro. Pura covardia diante de um olhar perene e imortal.

Nestes tempos que vivemos somos também estranhos na Terra do Amor e essa mulher sabia bem disso também. Era elegante em cada novo parágrafo. Inexistindo o desejo, o desejar e a libido expressas no erotismo e no amor muito mais amplo de cada um deles. Amor que só ansiava pelo desvelar e cada personagem se tornar mais e mais quem realmente era. Ela sabia apresentar a jornada de retorno de cada personagem a essa terra do amor que os tempos atuais repudiam.

O que era interessante e muito mais agregador, amavam alguém simplesmente por ser aquele alguém não importando o sexo, a pele e qualquer outra coisa. E lidavam com os encontros e desencontros, toda angústia dessa entrega e pagavam o preço dessa liberdade.

Diferentemente dos vivos que duram algumas cinco, seis ou dez décadas, lá para os vampiros e vampiras eram centenas e milhares de anos. Enfim, aos zumbis da contemporaneidade só resta mentirem para se mortificarem enquanto verificam suas métricas de aprovação sendo o que não são e não aguentam na planilha do marketing social antes do surto da vez.

ANNE RICE E O SEU LEGADO PARA A COMUNIDADE VAMP

Anne Rice teve um dos mais longos e prósperos diálogos com o chamado “Arquétipo Vamp” e este “Espirito Caçador” de todos os tempos. Sua obra e legado vivem nos livros e estes serão preservados para tempos melhores e sempre acessíveis aos afins e do Sangue. Suas máscaras e personagens carregavam o tônus de filósofos que tranquilamente figurariam nos textos socráticos ou platônicos. Se não fosse ela e Whitley Strieber antenados e conectados a efervescência daquilo que se organizava enquanto Comunidade Vamp nos anos setenta, lá no hemisfério norte até hoje o gênero vamp nas artes e nas letras permaneceria moribundo e menos do que um cadáver. Todos nós hoje somos herdeiros diretamente ou subjetivamente deste legado espreitado, caçado e cristalizado com maestria por Anne Rice.

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