A Arte da Mordida (Texto de Lord A:. & Shirlei Massapust )

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A Arte da Mordida (Texto de Lord A:. & Shirlei Massapust )

As coisas agradáveis à natureza de uma pessoa são mais importantes do que as coisas do agrado de toda uma nação.
Vatsyayana. Kama Sutra.

Nesta sexta-feira venusiana compartilhamos com nossas leitoras e leitores um texto sobre a “Arte da Mordida” – com suas nuances afrodisíacas e por vezes saturninas desta senda Vampyrica que alguns de nós trilham enquanto cosmovisão e outros como um exótico fashionismo.O assunto surgiu espontaneamente em uma das comunidades eletrônicas integrantes de nossa ampla Rede Vamp, sendo elíciado pela nossa colaboradora Shirlei Massapust e rapidamente atraiu a atenção de muitos participantes, tornando-se um “trending topic” aqui em Halo Antares.O assunto também rendeu o resgate e a leitura de obras clássicas como “A Noiva de Corínto” de Goethe e a deliciosamente perversa “Christabel” de Samuel Taylor Coleridge.Segue um resumo do debate sobre tópicos da cultura oriental.

A arte da mordida nos Contos do Vampiro

Em todo o oriente foram difundidas várias versões dos Vinte e Cinco Contos do Vampiro (???????????????) que versam sobre as desventuras do rei Vikramaditya – um homem recatado e conservador – ao conduzir o corpo de um jovem enforcado até o cemitério. O defunto não para de falar pois está possuído por um vet?la ou baital desinibido, de idéias liberais, que se diverte com a vergonha do rei, narrando contos eróticos picantes. Na versão tibetana ele ensina como um homem deve agir para conquistar o amor das mulheres:

Quando as sombras caíram sobre a face da terra e aqui e ali uma estrela cintilou no pálido firmamento, o filho do ministro chamou Vajramukut, que passara pelo menos metade daquele dia se embelezando. Barbeara-se cuidadosamente. (…) Arqueara as sobrancelhas arrancando com pinças os finos pêlos em volta delas. Puxara suas encaracoladas madeixas graciosamente sobre o rosto. Traçara largas linhas de antimônio ao longo das pálpebras. Um sinal sectário mais brilhante estava afixado à sua fronte. Avivara a cor de seus lábios mascando bétel (…) e branqueou o pescoço. (…) Corou os lóbulos das orelhas apertando-os, fez os dentes brilharem esfregando pó de cobre nas raízes e realçou a delicadeza de seus dedos colorindo as pontas com hena. Não fora menos cuidadoso com sua vestimenta. (…) Além disso cobriu-se de armas, de modo a parecer um herói – o que as jovens donzelas admiram[1]

As cores capitais da paixão oriental eram o preto, o vermelho e o cobre. Negro era o contorno dos olhos de gazela, pintados quase à moda egípcia, e as tatuagens removíveis em motivos tribais. Vermelho era a marca sectária do status real e místico – o olho de ?iva no centro da testa – e os lábios rubros contornando poderosos dentes metálicos que expressavam a fúria contida no coração flamejante do nobre guerreiro. Estes são os dentes “com pontas afiadas” e “passíveis de serem coloridos”, tão elogiados por Vatsyayana.[2]

Figura: Um guerreiro asura sorri exibindo dentes afiados e tingidos de negro. (Máscara japonesa do período Edo).

A aparência é importante para o sucesso nos relacionamentos conjugais. Porém, sobretudo, o amante deve estar psicologicamente preparado:

Quando desejares cativar uma mulher, sempre te impõe a ela. Dize-lhe que és seu senhor, e ela imediatamente acreditará que é tua serva. Informa-a de que ela te ama, e imediatamente te adorará. Mostra-lhe que não te importas com ela, e não pensará senão em ti. Prova-lhe pelo teu modo de proceder que a consideras uma escrava, e se tornará tua paria. (…) Cuidado com a virtude fatal que os homens chamam reserva e as mulheres timidez. (…) A ocasião de cortejar uma mulher é o momento em que a encontras, antes que ela tenha tempo de pensar; deixa-a usar a reflexão, e ela poderá escapar ao laço.[3]

Na versão hindu atribuída ao sábio Somadeva, o vampiro narrador entretém o envergonhado Vikramaditya com antigas estórias sobre o amor do Rei Yasa?ketu pela princesa asura M?g??kasena, uma reencarnação da alegre esposa de Yasa?ketu numa de suas vidas passadas. O reencontro dos amantes no mundo inferior foi intensamente marcado pela prática livre da “arte da mordida”, descrita de forma bastante vívida.

Partilharam ambos a felicidade da volúpia; o amor fabricou para ela uma segunda série de enfeites: Em seus cabelos, de onde haviam caído as guirlandas, os dedos de seu amante que os seguravam pareciam madrepérolas; a mordida dos dentes havia tornado vermelhos seus lábios, antes secos e sem cor; em seus seios as unhas haviam traçado uma nova coroa de rubis; em seu corpo, de onde os pós das pinturas haviam desaparecido, os fortes abraços haviam produzido novo rubor.[4]

A moral da história dos contos do vampiro orientais é que no fim das contas o vampiro sempre tem razão. É ele quem salva a vida de Vikramaditya no final e é ele quem ensina aos leitores a não ter medo de amar. A arte da mordia é igualmente ensinada no Kama Sutra que, como o próprio nome revela, é um sutra e, portanto, um livro religioso sagrado, destinado a lecionar virtudes aos leitores de sua época e lugar (os Contos do Vampiro desfrutam de status semelhante, somente um pouco inferior).

A arte da mordida no Kama Sutra

O Kama Sutra é um antigo texto indiano sobre o comportamento sexual humano, amplamente considerado o trabalho definitivo sobre amor na literatura sânscrita. O texto foi escrito por Vatsyayana, como um resumo dos vários trabalhos anteriores que pertenciam a uma tradição conhecida genericamente como Kama Shatra. O quinto capítulo desta obra magnífica é dedicado exclusivamente à mordida apaixonada, sugerindo “meios a serem empregados com mulheres de diferentes países”, recomendando a imitação dos prazeres e a interação cultural. Vatsyayana ressalta a sabedoria de Suvarnanabha, que nos ensina a praticar primeiro as carícias e afagos que aumentam a paixão, para somente depois incrementar a relação com atos voluptuários de selvageria romântica. É nesta última categoria que se inclui a arte da mordida:

Quando o homem morde a mulher com força, ela deve fazer o mesmo com ele, com força ainda maior. Assim, um “ponto” deve ser retribuído com urna “linha de pontos”, e esta com uma “nuvem quebrada”, e, se estiver profundamente irritada, iniciará uma briga de amor. Deve então segurar o amante pelo cabelo, inclinar-lhe a cabeça para baixo, beijar-lhe o lábio inferior e, embriagada pelo amor, fechar os olhos e morder o amante em diferentes partes do corpo. Mesmo de dia e em lugar público, quando seu amante lhe mostrar alguma marca que ela lhe possa ter infligido no corpo, deve sorrir à vista dessa marca, e, voltando a face como se o fosse censurar, mostrar-lhe com um olhar zangado as marcas no seu próprio corpo que tenham sido feitas por ele. Assim, se o homem e a mulher agirem de acordo com o gosto de ambos, o seu amor não diminuirá, nem mesmo ao fim de cem anos.[5]

Vatsyayana interpretou os numerosos termos técnicos referidos no fragmento de Suvarnanabha da seguinte forma:

Todas as partes do corpo que podem ser beijadas podem ser mordidas, com exceção do lábio superior, o interior da boca e os olhos. As qualidades dos bons dentes são as seguintes: Devem ser iguais, ter um brilho agradável, passíveis de serem coloridos, de proporções adequadas, ininterruptos e com pontas afiadas. Por outro lado, os defeitos dos dentes consistem em serem embotados, descarnados, ásperos, moles, grandes e espaçados.São as seguintes as diferentes formas de mordidas:

  • A mordida oculta
  • A mordida inchada
  • O ponto
  • A linha de pontos
  • O coral e a jóia
  • A linha de jóias
  • A nuvem quebrada
  • A dentada do javali

A mordida que só se evidencia pela vermelhidão excessiva da pele mordida é chamada de “oculta”. Quando a pele é comprimida de ambos os lados, temos a “mordida inchada”. Quando uma pequena porção da pele é mordida com todos os dentes, temos a “linha de pontos”. A mordida conjunta de dentes e lábios é chamada de “coral e jóias”. Os lábios são o coral, os dentes as jóias. Quando a mordida é feita com todos os dentes, recebe o nome de “linha de jóias”. A mordida que consiste em um círculo de protuberâncias desiguais resultantes dos espaços entre os dentes denomina-se “nuvem quebrada”, sendo feita nos seios.A mordida que consiste em muitas linhas largas de marcas próximas umas das outras, e com intervalos vermelhos, é chamada “dentada de javali”. faz-se nos seios e ombros. Esses dois últimos modos de morder são peculiares de pessoas de intensa paixão.O lábio inferior é o lugar da “mordida oculta”, da “mordida inchada” e do “ponto”; as “mordida inchada” e “coral e jóias” são praticadas nas faces. O beijo, o apertão com ajuda das unhas e a mordida são ornamentos da face esquerda, e quando se fala em face, devemos entender sempre a esquerda.Tanto a “linha de pontos” como a “linha de jóias” devem ser feitas na garganta, nas axilas e nas articulações das coxas; só a linha de pontos, porém, deve ser praticada na fronte e nas coxas.As marcas de unha e as mordidas nos objetos seguintes: Um ornamento da testa, um brinco, um ramo de flores, uma folha de bétel ou de tamala, usados ou pertencentes à mulher amada são sinais do desejo de prazer. Aqui terminam as diferentes formas de mordidas.[6]

Vatsyayana prossegue compilando os costumes praticados em vários países à sua épocxa. Em certos lugares as mulheres praticavam todas as formas de prazer, mas cobriam os corpos e insultavam os que proferiam palavras grosseiras. Noutras partes elas gostavam da publicidade escandalosa, amavam os prazeres perversos, eram conquistadas com pancadas, diziam palavras grosseiras e gostavam que os amantes lhes falessem no mesmo tom. Em Aparatika e Lat as mulheres apreciavam os beijos ruidosos, com sons de estalo. Em Abhira e no país próximo do Indo e dos cinco rios (isto é, o Penjabe) elas eram conquistadas “pela Auparishtaka, ou congresso oral”.[7] Em Stri Rajya e Koshola usava-se medicamentos para aumentar o fluxo do sangue menstrual das mulheres para que fosse, provavelmente, bebido pelos seus parceiros.[8] Contudo, o mais importante conselho de Vatsyayana é que nas questões de amor, o homem só deve fazer aquilo que for agradável às mulheres. Ou seja, se sua parceira não gostar de ser machucada com arranhões e mordidas, então o amante deverá ceder a outras formas de união sexual.

A mordida de amor usada como instrumento de punição judicial na antiguidade

Existiu uma época em que isto que nós chamamos de “antiguidade” era o presente e as pessoas lembravam de estórias mais antigas do que a história. A lesão corporal irreversível não consentida com aplicações conjugais e jurídicas fazia parte desse passado remoto, há muito abolido e repudiado.O vampiro que narra os contos orientais raramente conta estórias de outros vampiros. Uma preciosa exceção consta na versão tibetana onde um pisach age como um baital e entra num cadáver para divertir-se, pois vê que a estúpida amante do homem morto lhe estava enchendo de carícias:

Quando Jayashri chegou ao lugar desejado, entrou na casa e encontrou o amante estendido na porta. Estava morto, apunhalado pelo salteador. Mas ela, crendo que ele, como de costume, se havia embriagado com haxixe, sentou-se no chão erguendo-lhe a cabeça, pousou-a suavemente no colo. (…) Por acaso um pisach (espírito maligno) estava sentado em uma grande figueira fronteira à casa e ocorreu-lhe, ao contemplar a cena, que podia se divertir de modo característico. Pulou, pois, do galho, vivificou o cadáver e começou a retribuir as carícias da mulher. Quando, porém, Jayashri curvou-se para beijar-lhe os lábios, ele arrancou-lhe a ponta do nariz com uma dentada. Em seguida, saiu do corpo e voltou ao galho onde estivera sentado.[9]

Este episódio utiliza um recurso jurídico típico da legislação do antigo oriente: Quando ficava comprovado que uma mulher casada era adúltera, o marido ou o amante poderia lhe arrancar a ponta do nariz para que ela ficasse feia, causasse asco, e não fosse mais desejada pelo outro homem. (Talvez seja por isso que surgiu o costume de cobrir a face, abaixo dos olhos, com um véu).

As tradições normalmente originárias da Índia e do Tibet circulavam e eram traduzidas até nas áreas mais longínquas do oriente. Por exemplo, os chineses atribuem a autoria do I Ching ao Rei Wen, da dinastia Chou, e a de alguns dos seus comentários a Confúcio. O Livro das Mutações atualmente disponível possui sessenta e quatro hexagramas que podem ser interpretados de forma oracular ou filosófica, mas para o presente estudo somente interessará o hexagrama 21. A existência de carne seca cartilaginosa pressionada entre os maxilares de alguém deu origem ao chinês SHIH HO (??), traduzido literalmente como uma “união pela laceração” notadamente “por meio da mordida”. A natureza da amputação do nariz fica clara no comentário à posição da linha móvel traçada em segundo lugar:

A segunda linha, interrompida, mostra alguém mordendo a carne tenra de lado a lado, e (passando a) tirar fora o nariz. Não haverá erro. “Ele morde de lado a lado a carne tenra e (passa a) tirar fora o nariz”.[10]

Indícios de conflitos conjugais podem ser vislumbrados nesta hipótese, que mostra alguém arrancando o nariz de outrem à dentadas, pois antigamente a lei dos povos orientais permitia ao esposo traído amputar o nariz da esposa adúltera e mais ninguém além da mulher infiel tinha o nariz cortado…

A sorte posterior do consulente muda de acordo com a posição da linha móvel, versando sempre sobre problemas jurídicos de natureza civil e com implicações financeiras (a exemplo do rompimento do contrato de casamento). Se a linha móvel ocupa o quarto lugar, ela mostra alguém roendo até o osso, “granjeando as garantias do dinheiro e rapidez”.[11] Se linha móvel está na quinta posição, o sujeito simbólico está “roendo carne ressequida, e encontrando o ouro”.[12] No primeiríssimo lugar o problema inexiste e não há mordida, pois a esposa é fiel:

A primeira linha, inteira, mostra alguém com seus pés dentro das meias e despojado de seus dedos. Não haverá erro. “Seus pés estão dentro das meias, e ele está despojado de seus dedos”: — não haverá caminhada (para fazer o mal).[13]

Isso não é uma alegoria simbólica, pois quando as meninas enfaixavam seus próprios pés o processo de diminuição pela contração comumente causava fratura nos ossos e necrose nos dedos. O objetivo da prática voluntária era fazer os membros caberem dentro de minúsculos sapatinhos ornamentais e permitir que as moças andassem sempre rebolando como ‘um elefante bêbado’ (alguns cronistas acreditavam que elas estavam sempre a dançar). Porém um efeito colateral daquele costume era a confiança do esposo que, obviamente, nunca teria o desprazer de ver sua mulher fugir correndo atrás de outro. (Ainda hoje existe um número cada vez menor de damas orientais despojadas de dedos, que sempre caminham “com seus pés dentro das meias”).

Notas:

[1] BURTON, Richard Francis. Vikram e o Vampiro. Trd. Sergio Augusto Teixeira. Sçao Paulo, Círculo do Livro, p 65-66.[2] MALLANAGA VATSYAYANA. Kama Sutra: Traduzido da versão clássica de Richard Burton. Trd. Walternsir Dutra. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1981, p 104.[3] BURTON, Richard Francis. Op Cit., p 66.[4] CONTOS DO VAMPIRO. Trd. Luís Cláudio de Castro e Costa. São Paulo, Martins Fontes, 1986, p 79.[5] MALLANAGA VATSYAYANA. Op Cit., p 106.[6] MALLANAGA VATSYAYANA. Op Cit., p 104-105.[7] MALLANAGA VATSYAYANA. Op Cit., p 105.[8] MALLANAGA VATSYAYANA. Op Cit., p 106.[9] BURTON, Richard Francis. Op Cit., p 103.[10] I CHING: O livro das mutações. Trd: E. Peixoto de Souza e Maria Judith Martins. São Paulo, Hemus, p 151.[11] I CHING: O livro das mutações, p 151.[12] I CHING: O livro das mutações, p 151.[13] I CHING: O livro das mutações, p 151.

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