Vamps + Interfaces do Sagrado na Psicologia Jungiana e o desenvolvimento da consciência feminina

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Vamps + Interfaces do Sagrado na Psicologia Jungiana e o desenvolvimento da consciência feminina

Durante o começo do ano de 2011, estudantes do terceiro ano do curso de psicologia da UNINOVE escolheram abordarem INTERFACES DO SAGRADO NA PSICOLOGIA JUNGUIANA E DESENVOLVIMENTO DA CONSCIÊNCIA DO FEMININO e para a consecução desta pesquisa buscaram por integrantes do Círculo Strigoi, antigo Officina Vampyrica.Segundo as próprias palavras dos pesquisadores:

(…)Para um melhor entendimento entre teoria e a prática analítica de Jung realizamos uma revisão literária e pesquisas orientadas pela supervisão para tentar traçar um paralelo entre a religião pagã denominada Strigoi, os mitos e rituais que se fundamenta. Chegando assim a montagem deste relatório final, com todas as nossas críticas e considerações sobre o tema.(…)

Dentro das limitações técnicas da pesquisa e da manutenção de aspectos velados do círculo e da ausência de uma visita de campo e pessoal da parte dos pesquisadores – penso que eles  executaram um trabalho bastante interessante e instigante – sendo que nunca tiveram qualquer contato prévio com os temas abordados.Talvez devido a “jargões” acadêmicos, alguns pontos possam soar com uma tônica incomum para integrantes da cena e mais específicos da Cosmovisão Vampyrica.Particularmente penso que alguns trechos da minha entrevista e alguns conteúdos que abordaram – teve uma perda maciça de informações.Mas enfim, se por um lado perderam nas especificidades por outro apresentam temas interessantes…Pelo menos um bom começo de trilha para leitoras e leitores que também estão travando contato pela  primeira vez com esta temática.

De fato é um registro peculiar sobre alguns aspectos parciais da Cosmovisão Vampyrica, de algumas práxis do Círculo Strigoi – e que com certeza virá a instigar mais perguntas e inspirações.Compartilhamos agora com vocês o trabalho e se quiserem deixem commnents ao término da leitura.E se quiserem conhecer mais do Círculo Strigoi, cliquem aqui.

INTERFACES DO SAGRADO NA PSICOLOGIA JUNGUIANA                    E DESENVOLVIMENTO DA CONSCIÊNCIA DO FEMININO

Relatório Final de Estágio Básico III do curso de Psicologia, sob supervisão da Professora Izildinha Konichi

Resumo:
O objetivo deste trabalho foi o de, a partir da mitologia, entender a fundamentação teórica de Jung. Como os fundamentos junguianos trabalham com os mitos para entender e analisar a psique humana, que ele nomeou de psique arquetípica, que surgem na consciência como imagens simbólicas. Entender a analise junguiana como sendo simbólica e análoga, ou seja, a interpretação acontece através da ampliação da imagem simbólica, traçando paralelos e semelhança com outros símbolos. Realizamos leituras críticas de mitos indicados pela supervisão, que percebemos ser a base de todos os temas que dão sustentação a vida humana, como as religiões, que iremos abordar neste relatório. A partir dos textos indicados realizamos debates e articulações com o tema do estágio, durante encontros semanais.

Procuramos entender através de literatura especializada os principais conceitos da teoria junguiana, permitindo-nos refletir sobre suas principais teorias e sua importante contribuição para a psicologia. Para um melhor entendimento entre teoria e a prática analítica de Jung realizamos uma revisão literária e pesquisas orientadas pela supervisão para tentar traçar um paralelo entre a religião pagã denominada Strigoi, os mitos e rituais que se fundamenta. Chegando assim a montagem deste relatório final, com todas as nossas críticas e considerações sobre o tema.

Palavras chaves:
Arquétipo, feminino, mito, inconsciente coletivo e Strigoi.

Introdução

A maior contribuição de Jung à psicologia é a descoberta do inconsciente coletivo. A psique individual não é apenas produto de experiência pessoal, possui uma dimensão que resulta da experiência da espécie que se manifesta em padrões e imagens universais, conforme vimos no capítulo que aborda o ego inflado. O conteúdo do inconsciente coletivo são os arquétipos.

O arquétipo pode ser interpretado como modelo preexistente, inconscientemente, inerente ao ser humano, sendo identificado por estruturas psíquicas. Jung, após estudar os sonhos de seus pacientes, percebeu que os sonhos eram constituídos de imagens e símbolos e esses possibilitavam o resgate de fatos históricos e de motivos mitológicos.  Jung percebeu que os mitos são formas de explicar o mundo e o homem, que existem em todas as culturas e civilizações. Os mitos são a parte simbólica da linguagem, uma forma não racional de explicar fatos e acontecimentos, por alegorias. Conhecendo os mitos, entendemos os mais variados povos e culturas. O mito, segundo Jung, e uma forma de manifestação do inconsciente, o que ele chamou de inconsciente coletivo. Os arquétipos são inúmeros e incontáveis, porém, Jung nomeia alguns que estão em permanente contato com o eu. São eles: a persona, a sombra, a anima, o animus e o self – este também é denominado de si – mesmo e constitui o núcleo central não só do inconsciente, mas, também, de toda a psique.

Os temas comuns dos arquétipos, que são expressos em praticamente todas as culturas, são o herói, o pai poderoso, a mãe carinhosa, a bruxa, o velho sábio, a criança inocente, a morte e o renascimento. A origem dos mitos não é conhecida e se repetem em qualquer época e em qualquer lugar do mundo — mesmo onde não é possível explicar a sua transmissão por descendência direta ou por “fecundações cruzadas” resultantes da migração.O arquétipo, ao realizar seu caminho de humanização, estruturando a consciência em função de suas emergências simbólicas, seguirá por uma ou outra variante mítica.

A partir da mitologia e com base nos fundamentos junguianos entrevistamos Lord A, seguidor e praticante da “religião” pagã Strigoi, para entendermos os mitos e ritos que fundamentam esta prática pagã. Strigoi, segundo nosso entrevistado, quer dizer povo fluído e que, em grego, Strix quer dizer pássaro negro que voa na noite. Pesquisamos a etimologia da palavra strigoi em romeno que tem também outro significado, com duas acepções: “feiticeira, quando se trata de mulheres vivas”, e “fantasma”, quando designa homens que parecem mortos ou cadáveres que não se decompõem, seja porque possuem duas almas, um boa que deixou o corpo no momento da morte, enquanto a má permanece nele, seja ainda por que a alma voltou no seu invólucro carnal seis semanas, seis meses ou sete anos após a morte.

Método

Para a realização deste trabalho adotamos as seguintes estratégias metodológicas: Realização de leituras críticas semanais do texto acrescido a comentários pessoais; (portanto, revisão bibliográfica também)Utilizamos nos da entrevista para realizar a discussão; realizando articulações entre as teorias junguianas e as práticas religiosas.

 

Discussão

Nosso relatório de conclusão de estágio foi o de pesquisar e analisar os mitos que sustentam uma prática religiosa, o grupo decidiu discorrer sobre a singular experiência que na maioria das culturas valorizam e se guiam através de seus diversos ritos e mitos que lhes permitem se inserir no mundo “separado”, transcendência.A experiência do sagrado é uma das vivências mais significativas para a existência humana, pois ela consegue lidar com o mistério, com a finalidade de iluminar o vazio e a distância que sentimos com relação a tudo o que a lógica formal não consegue sustentar. A religiosidade é a via que possibilita a passagem do profano para o sagrado, por mais que muitas coisas fujam de nosso controle.Jung, partindo da hipótese dos arquétipos, propõe que a alma humana deve ter uma possibilidade de relação com a divindade, isto é, forçosamente ela deve ter algo em si que corresponda ao ser Deus, pois de outra forma jamais se estabeleceria uma conexão entre ambos. Esta correspondência, formulada psicologicamente, é o arquétipo da imagem de Deus.

Empiricamente, Jung concluiu que o arquétipo da imagem divina, mencionado acima, não é diferenciado do arquétipo do Self – em outras palavras, suas imagens não se diferenciam. Essas duas idéias apresentam-se sempre mescladas. Basicamente, o construto Self expressa na teoria de Jung a totalidade da personalidade global – como unidade na qual se unem os opostos constituintes da psique.

“É o arquétipo central da ordem, da totalidade do homem”
(Jung, 1975 p. 358)

A presença subjetiva do arquétipo (a própria experiência religiosa):

“é o sentimento da presença de um numen; isto é, o sujeito que se sentia preso por essa comoção vivia a fonte de sua experiência como uma presença psíquica extra-consciente, dotada do caráter especial do iluminado e do benéfico, mas também do estranho. Poder-se ia dizer que o fascínio da contemplação religiosa, o que essa experiência proporciona é caminho para a totalidade, uma integração ego e si-mesmo. O ego é um dado complexo formado primeiramente por uma percepção geral do nosso corpo e existência, e a seguir pelos nossos registros de memória.Tal conceito representa a meta, o fim último da personalidade, em forma de processo: “tornar-se um ser único, na medida em que por ‘individualidade’ entendermos nossa singularidade mais última e incomparável, significa também que nos tornamos o nosso próprio si-mesmo [Self]” (Jung, 1928/1981, p. 266).

Pode-se evidenciar por diversos fatores que a função religiosa é polimorfa, mas no aspecto psíquico e simbólico ela teria uma função de desdobrar a consciência, que é limitada e restrita e com as imagens e ritos religiosos a “ampliação” de consciência é possível.Jung chega mesmo a colocar os arquétipos como fundantes da religião:

“… as idéias religiosas na realidade psicológica não se apóiam unicamente na tradição e na fé, mas totalidade, que coloca como manifestas experiências imediatas do eu interior e processos vivos no inconsciente que são caracteristicamente numinosos”
(Frey-Rohn, 1991, p. 268).

Nós humanos, pensando com base na perspectiva de religiosidade em Jung, independente da prática religiosa ou mesmo não seguindo nenhuma religião, a experiência do sagrado é buscada, até mesmo no profano, por exemplo, quando estamos vislumbrando o nascer do sol, ou observando as estrelas nos sentimos numa total sintonia com o todo circundante, como na imagem da mandala.Com relação ao tempo sagrado e profano, a religião também tem como função nos inserir num estado atemporal e infinito, visto que o tempo, como descrito na mitologia, Cronos o soberano do universo e o pai que devora os próprios filhos, ou a busca de uma reconciliação com os dentes afiados do tempo.

Strigoi

O Círculo Strigoi é um grupo de elite autônomo e soberano, que oferece informação, treinamento e irmandade para pessoas que apreciam a vastidão nomeada de “Cosmovisão Vampyrica”. Entre nossos principais valores estão a beleza, a fluidez, a honra e o dionísiaco. Somos politeístas, acreditamos que o tecido da realidade em todos seus fiamentos, é composto por incontáveis miríades que existem em constante processo de ajustamento e equilíbrio – cujo as relações, movimentos e as transmutações dentro de seus próprios contextos foram nomeadas ao longo da história humana desde a antiguidade clássica.E através de seus relatos em mitos, ritos, artes, danças e outros –  podemos compreender, vivenciar e resgatar valores e sabedorias que estão demasiadamente em falta na cultura dominante.

Em nossa abordagem prezamos a expressão contemplativa e pugilística, no que tange a arena do verbal. Priorizamos a cultura do pudor em relação à cultura da culpa. Valoriza o dionísiaco e a sedução dos sentidos como via de ampliar a espiritualidade das mulheres e homens que vem a integrar seus círculos.Entrevista com Lord A.  Inicio a entrevista perguntando a Lord.A a etimologia da palavra Strigoi,  dizendo que significa povo fluido, também destaca que em grego, Strix significa pássaro negro que voava na noite.

Hipoteticamente o Strigoi é uma visão politeísta e panteísta.“De origem pagã, o termo Strigoi vem da Romênia e designava um dos muitos cultos/ritos de fertilidade da terra, baseados em processo extático e nos mitos e ritos da caçada selvagem. As bases informativas desta sentença provêm das obras do historiador italiano Carlos Ginzbourg. Praticamente o que nos últimos dois ou três séculos é denominado como “tipo de vampiro” tem suas origens em outros nomes ou termos que designavam antigos cultos de fertilidade da terra do leste e do norte europeu.”Strigoi é uma cosmovisão que não tem um livro sagrado, e não há conhecimento revelado, não há gurus, obviamente por ser uma prática pagã, e Lord.A deixa claro que não é uma prática de transcendência e sim uma comunhão imanente.

Com relação ao processo da caçada selvagem, Lord. A explica que na ritualística de seu circulo ele se dá na possibilidade de ampliar a consciência e abarcar elementos velados ou não reconhecidos de sua própria totalidade.A utilização dos mitos e Ritos de fertilidade da terra tem como finalidade no circulo Strigoi busca da abundância e prosperidade, sentir-se bem. Lord.A justifica que a completude é uma ilusão. Cultua-se o Deus Dionísio, no sentido de que tomam vinho que revela no rito Strigoi a força indestrutível da vida.

O rito de fertilidade da terra tem como também tomar posse de seu poder criador, de sua energia de vida (criativa), destaca Lord.A na prática e cosmovisão Strigoi. Fazem meditações, circunambulação em torno de um centro, entrada no templo e celebração do vinho.Pergunto o que é, e o que significa o contato com o Eu feral, Lord.A diz que é o gênio emocional são comportamentos herdados em estado bruto, todo vasto território não apropriado, e pergunto o que fazer com esse Eu feral, dizendo que é “cavalgar” o próprio gênio emocional(daimon), construir o próprio totem e reconhecer o animal caçador dentro de si. Os deuses do submundo simbolicamente têm influência na prática Strigoi, nesse sentido o submundo significaria o inconsciente (o lado noturno ou não-modelado no jargão vampiresco) o noturno e o obscuro se referem à dissolução das diferenciações, divisões e afastamentos do cosmos. A partir desta vivência do elemento noturno, a formação de um “corpo-de-sonhos” ou um duplo-etéreo chamado de “Dragão interior” no jargão vampiresco, o Strigoi montado em seu Eu – feral pode explorar todos os sendeiros da árvore do mundo, como um espírito indomável, um estado de ser inspirado e não-limitado pelos dogmas da religião e cultura dominantes. Lord.

A destaca que o mito Hades e Perséfone embasa e sustenta os ritos Strigoi que é uma ritualística de renovação, transformação e ampliação da consciência através da arte.Hades ou Plutão representam tanto um reino dos mortos enquanto um Deus, que neste caso é o regente do não-modelado, e o limiar final da imaginação humana.

Segundo Lord A. é preciso entender que desde a antiguidade o símbolo associado à Hades representa o sétimo dia, onde se processa os mistérios da indolência do prazer e do repouso onde se festeja tudo aquilo que viveu – estruturante ou desestruturante. Para Lord.A pode-se comparar a taça de Hades com o momento em que obtemos uma compreensão mesmo que aparente do sentido em que damos a nossa vida, no final de uma semana. Bebemos o “Sangue” (somatória de vivências) e caímos no êxtase até despertarmos recompostos e resignificar no alvorecer seguinte, transformados, renovados e desenvolvidos.

Perséfone é o ciclo, a taça formativa que dança e envolve Hades enquanto regente do submundo. É uma deusa com papel duplo, no lado diurno Perséfone “a menina dos olhos”, ou as estações quentes representam o consciente, e no lado noturno, ou as estações frias ela olha para o interior que é o próprio “Sangue” – a totalidade que é vertida e que Hades beberá ao final.Celebram Noites Scarlates, caracterizando (noites quentes), ligada a sexualidade, celebração do amor, que representa a relação amorosa entre Hades e Perséfone.

“Ver como estamos na escuridão mais profunda e na luz mais radiante”

O Strighezzo das noites Scarlates é uma visita simbolicamente a casa de Vênus-Afrodite, a totalidade do amor do bom e do belo, do amor platônico ao amor cortês (Eleanor de Aquitânia e os Trovadores) até a face avassaladora e destruidora das paixões, (como na história de Cleópatra, ou Carmem de Bizet). E por que não dizer dos amores de Shiva e de Kali, Sekhmet e Ptha, ou ainda Perséfone e Hades, relata Lord.A.

O cortejar e o terror, ou entusiasmo e melancolia na práxis Strigoi é explicito no jogo de sedução de Hades e Perséfone. O Strighezzo das noites Scarlates é parte integrante e seqüencial de uma roda do ano de celebrações e festividades inspiradas parcialmente nos mitos e conteúdos aqui relatados por Lord.A. Cortejar é o jogo de atração e estímulos do olhar, do sensorial e aquilo que ativa e somatiza no corpo dos amantes, o terror, limiar – o que há depois, a porta entreaberta no final do corredor escuro – o dragão guarda o tesouro.

“O vampiresco no Strigoi representa a imortalidade, o eterno presente onde sorvemos o “Sangue” que simbolicamente em nosso meio um jargão para a totalidade da história e experiências culturais coletivas.”

Análise

A prática religiosa Strigoi segue preceitos e ritos baseados no mito de Hades e Perséfone. Pesquisando, conseguimos entender um pouco melhor a relação entre o mito, a prática religiosa e sua ligação com os vampiros.Hades era considerado o rei das entranhas da terra (aquele que não se vê). O guardião dos sonhos mais distantes da consciência, porém com a necessidade de realização. Divino regente do mundo dos mortos pode ser entendido simbolicamente como a capacidade de reflexão e introspecção, condição indispensável para que as transformações de alma ocorram. Com relação ao romance entre Hades e Perséfone, eles representam os amantes e tão somente a condição de serem amantes um do outro. Para melhor esclarecimento, farei um breve resumo do Mito de Perséfone, que representa o processo de formação do feminino.

Coré é a expressão de uma imagem arquetípica do feminino infantil que se transforma, no decorrer dos relatos míticos, na mulher, Perséfone. Para alguns autores, nascida do encontro de Zeus e Reia, ou para outros, de Zeus e Deméter – mãe da terra cultivada, mãe do grão, a maior fonte de riqueza e alegria (Alvarenga, 2010 p.313).

Hades aproveitou um dia em que Perséfone passeava sozinha. Quando ela se inclinou para aspirar o perfume de uma flor, a terra tremeu com grande estrondo. Uma falha se abriu bruscamente, e dela surgiu o deus do Inferno, num carro puxado por quatro cavalos negros. A jovem nem teve tempo de se recuperar do susto, porque ele a agarrou pela cintura e a levou consigo. O carro sumiu tão depressa quanto tinha aparecido, e a brecha se fechou atrás deles.

Os gritos desesperados de Perséfone foram ouvidos por sua mãe, Deméter. Ela acudiu, mas tarde demais. Nada assinalava a passagem do deus. Somente o ar agitado conservava o vestígio dessa aparição súbita, e as flores caídas atestavam silenciosas uma agitação recente.

Apavorada, a pobre mãe não sabia mais aonde ia. Errava pelo lugar, esquecendo seus deveres para com os homens. Normalmente, sua função de deusa da colheita, do trigo e de todas as plantas lhe impunha vigiar a produção agrícola. Na ausência de Deméter, o trigo se recusou a germinar, as plantas cessaram de crescer, e a terra inteira se tornou estéril. Então os deuses resolveram intervir.

O Sol, que tudo viu, revelou a Deméter onde estava sua filha. A princípio ela ficou aliviada por Perséfone estar viva, mas quando soube quem a detinha, exigiu que Zeus obtivesse sua libertação.”Entendo sua dor de mãe”, o deus lhe respondeu. “Intercederei por você junto a Hades. Ele vai devolver sua filha, ou não me chamo Zeus!”Mas Hades se negou a deixar a doce companheira partir. Deméter decidiu então abandonar suas funções. Pouco lhe importava como os deuses e os mortais viveriam sem ela.Ela também não podia viver sem a filha. Assumiu o aspecto de uma velhinha e se exilou voluntariamente na terra.Iniciou-se então um período cruel para os homens. De novo o solo secou, e a fome ameaçou a espécie humana. Essa situação não podia mais persistir. Os deuses se reuniram no palácio de Zeus e concordaram em persuadir Hades a devolver Perséfone à mãe.

Zeus tomou a palavra:”Caro irmão, você é o soberano do reino subterrâneo. Como tal, age de acordo com a sua vontade, contanto que não se meta neste mundo. Ora, desde que você reteve Perséfone, sua mãe recusa alimento aos mortais. Pela mesma razão, os sacrifícios se fazem raros. Você não pode deixar essa situação se agravar. Devolva a moça!”

“Está bem!”, disse o deus esperto. “Mas antes preciso verificar se ela não comeu ou bebeu alguma coisa durante sua estada, senão ela não pode mais voltar à terra. E a lei.”Interrogada, Perséfone respondeu com candura que tinha experimentado as sementes de uma romã. Hades exultou. Mas acabaram fazendo um trato: Deméter teve que aceitar que sua filha permanecesse três meses ao lado de Hades e subisse para ficar com ela o resto do ano.Assim é que, durante três meses, a terra se entristece, junto com Deméter, pela ausência de Perséfone. E o inverno e o solo se torna improdutivo. Logo que a moça volta, a vida renasce, e a natureza inteira festeja o encontro entre mãe e filha. Somente Hades acha demorada essa primavera que o separa de sua companheira.2

O casal regente dos ínferos, não configura a representação de pai e mãe, mas sim e tão somente o casal amante/amado (Alvarenga, 2010 p.124). Como citado na entrevista realizada, na prática Strigoi eles celebram Noites Scarlates que representa o amor eterno de Hades e Perséfone. A terra exige sangue, e como bebedora de sangue, ela é a senhora não apenas da morte, mas da matança, em sua qualidade de deusa da guerra e da caça. Os instintos de agressão e sexualidade, o amor e o desejo de morte, estão todos inseparavelmente unidos nela, em proximidade primordial. (Neumann, 2000 p.183)“Ver como estamos na escuridão mais profunda e na luz mais radiante.” Essa citação de nosso entrevistado nos remete a uma comparação como sendo Hades a escuridão e Perséfone a luz mais radiante.Deste encontro entre amante a amado, nasce Dionísio símbolo da criança divina, o que morre e renasce numa eterna renovação, representando para Hades a possibilidade de humanização. “Dionísio é o corpo que Hades não pode ser (Baptista, 2007)”Dionísio é a expressão do símbolo da transformação.

Nos cultos Strigoi percebemos isso quando Lord.A diz que tomam o vinho que significa a força indestrutível da vida e capacidade de transformação pela via estética, artística. Como a prática Strigoi está sustentada pelos ritos de fertilidade da terra também podemos articular com Perséfone, anima-grão, considerada pela mitologia a vida que se alimenta de vida, vida que transforma a vida. Perséfone, que concebe com Hades o filho Dionísio-trigo, figura máxima de redenção, alimento e cura da alma.O primeiro Dionísio, Zagreu – o grande caçador -, é produto de realidades complexas, opostas e complementares, como conta no mito. Zeus, metamorfoseado em serpente, copula com Perséfone, sua filha, o grão inseminador, a mais simbólica das expressões anímicas de Zeus. Esta estabelece com ele núpcias no recôndito do inconsciente através de seu duplo, Hades, e concebem a mais humana de todas as criaturas divinas (Alvarenga, 2010 p.297).

Com relação ao Eu-feral citado na entrevista: “cavalgar o próprio gênio emocional” poder-se-ai pensar na representação arquetípica de Dionísio, ou seja, simboliza tudo quanto é perigoso, caótico, inesperado e que escapa á razão humana. Ora, Eu-Feral é o contato com a corporeidade tanto simbólica quanto física, é a manifestação dionisíaca de energias vitais, com nossas emoções através da via estética como destacado na entrevista.

Dionísio

Não foi fácil proteger o jovem deus da fúria ciumenta de Hera. Ela o perseguia sem cessar para se vingar nele da infidelidade do marido. Zeus confiou Dioniso ainda bebê ao deus Hermes. Este o entregou ao rei Atamas e a sua esposa, Ino, para que recebesse uma educação digna da sua condição. A conselho de Hermes, a babá de Dioniso o vestia de menina para enganar Hera.

Mas a deusa não demorou a descobrir a trapaça, levando à loucura os que acolheram o deus.Zeus conseguiu salvar o bebê a tempo. Dessa vez, mandou-o para Nisa, uma cidade distante da África, de acordo com uns, ou da Ásia, segundo outros. O menino foi criado na montanha pelas ninfas do lugar. Para protegê-lo, seu pai lhe deu a aparência de um cabrito. Por isso, encarregou para o resto da vida dois chifrinhos na testa.Durante a infância nas montanhas, Dioniso descobriu a vinha e aprendeu a fazer vinho das uvas. A partir de então, não parou de exaltar as qualidades da preciosa bebida. Nas festas que davam em sua honra, havia vinho à vontade. A embriaguez não gerava apenas alegria, mas também crises de furor, como os fiéis ao deus não tardaram a perceber…

Tornando-se adulto, o deus partiu da cidade da sua infância. Levou consigo um cortejo de fiéis, os sátiros e as bacantes. Vestindo peles de animais e armados de bastões adornados com hera, eles dançavam e cantavam ao som de tamborins e flautas. A sua passagem, provocavam pânico, por causa do seu aspecto selvagem. Com eles, Dioniso atravessou o Egito e a índia antes de voltar à Grécia. Aí, foi para Tebas, onde ainda viviam as irmãs de sua mãe. Ao que parece, elas não tinham acreditado na união deSemeie com Zeus; logo, duvidavam da natureza divina de Dioniso. Mas ele estava decidido a lhes provar o contrário…

Dioniso entrou na cidade disfarçado de sacerdote. Seus fiéis logo se espalharam pelas ruas e praças, incitando os habitantes a abraçar o novo culto vindo do Oriente:”Venham conosco para as montanhas. Lá, há vinho, leite e mel a rodo. Larguem seus teares, deixem suas roupas velhas! Vamos coroá-los com hera, pôr-lhes na cintura pele de animais e lhes daremos o tirso. Oi Bacchoi!” Suas danças desenfreadas inquietaram o rei Penteu. Ele temia que aquele bando de possessos semeasse a desordem na cidade. Ordenou, portanto, a prisão do sacerdote e proibiu a celebração do culto. Alguns foram mandados para a prisão, mas a maioria deles fugiu para o monte Citéron, acompanhados por mulheres tebanas seduzidas por suas práticas.

Entre elas estava a própria mãe do rei, Agave, que se tornou bacante.O deus fingiu se reconciliar com o rei e lhe propôs ir ao monte Citéron espiar o que as mulheres faziam. Surpreendidas por aquele intruso que não reconheceram, as bacantes, com Agave à frente, lançaram-se furiosas sobre ele, estraçalhando-o como feras.Penteu pagou caro por sua desconfiança e resistência. Pereceu, punido por ter espionado as mulheres na intimidade, como um de seus ancestrais, Actéon, perecera por ter surpreendido Ártemis no banho.2Hades por ser imortal, não suporta a dor que é condição inerente do humano. Por isso Hades é considerado a face da introversão, o ensimesmamento, o recolhimento. Humanizar é sinônimo de tornar-se mortal e a consciência não nasce sem morte. Podemos associar a geração de consciência com mortes simbólicas vividas.Hades e seu reino.

No limite da terra, onde o sol se põe e o oceano começa, abria-se o império dos mortos, no qual reinava o poderoso Hades.O mundo subterrâneo era rodeado de todos os lados por pântanos e rios. Portanto,as sombras dos defuntos tinham que passar pelas águas lamacentas do Estige e do Aqueronte para entrar nos domínios de Hades. O barqueiro Caronte aguardava na margem e só aceitava a bordo da sua barca os mortos que tivessem sido sepultados. Os outros, os que não foram encontrados ou foram abandonados, eram condenados a errar eternamente na entrada do Inferno, enquanto esperavam que um vivo resolvesse enterrá-los.Aqueles que embarcavam tinham que pagar Caronte. Era por isso, para que o morto pagasse sua passagem, que os gregos punham uma moeda entre os dentes dele durante o funeral.Uma vez na barca, os defuntos deixavam definitivamente o mundo dos vivos. Quem fazia a viagem num sentido, jamais podia retornar nem ver de novo a luz.Cérbero, o cão de três cabeças, tratava de impedir os que tentassem fazê-lo. Postado na entrada do reino, recebia com amabilidade os passageiros de Caronte. Mas se alguém procurasse voltar, mostrava-se um guardião feroz. Ora, mais de um defunto aspirava à luz logo que desembarcava na monótona planície dos Asfódelos. Árvores sombrias varriam tristemente o chão com seus galhos. Que lugar sinistro!

Os mortos eram julgados de acordo com sua vida passada e, conforme seus erros eram postos em diferentes lugares. Minos, Éaco e Radamanto é que examinavam a vida passada dos defuntos e pronunciavam um julgamento. Eles haviam sido designados juízes por sua sabedoria e vida exemplar.Os que não cometeram nenhum crime mas não se distinguiram por nenhuma ação virtuosa, ficavam na planície dos Asfódelos por toda a eternidade.Aos heróis e aos homens virtuosos, os juízes reservavam os Campos Elísios. Lá se estendiam clareiras floridas das quais se elevava o canto dos pássaros e os acordes melodiosos da lira. Os bem-aventurados se divertiam em banquetes onde o vinho corria à larga.Já os desgraçados que foram culpados de algum erro, recebiam punição eterna. Eram encerrados no soturno Tártaro, cercado pelos meandros do rio Estige, e lá sofriam suplícios proporcionais a suas faltas.Tântalo, rei da Lídia, cometera em vida um crime horrível. Recebendo a visita dos deuses, servira-lhes seu próprio filho Pélope, a fim de ver se eles eram capazes de identificar a carne humana. Um só bocado bastou para que os deuses reconhecessem que o que comiam não era um animal.

Indignados, conseguiram trazer Pélope de volta à vida, mas o rapaz guardou para sempre um vestígio desse banquete funesto: o ombro devorado foi substituído por um pedaço de marfim.Quanto a Tântalo, foi atirado nas profundezas do Tártaro para sofrer uma punição terrível. Mergulharam-no até o pescoço num lago, debaixo de uma árvore com galhos carregados de frutas maduras. Apesar disso, ele nunca saciaria sua sede nem mataria sua fome. A água recuava, mal ele aproximava os lábios secos. Quando estendia a mão para colher uma fruta, os galhos se erguiam. Numerosos supliciados povoavam assim essa parte do reino.Hades era o soberano onipotente de lá, porém não demorou para que o poder deixasse de compensar sua profunda solidão. Cansado de reinar sozinho sobre aquele povo de sombras, quis se casar.

Infelizmente, as noivas eram muito raras. Nenhuma deusa e nenhuma mortal queriam adotar aquela vida debaixo da terra, privada para todo o sempre da luz do sol. Logo, ele se viu obrigado a raptar uma noiva. Sua escolha recaiu em Perséfone, uma das moças mais bonitas da Sicília.2

O autoconhecimento, condição de estabelecer a consciência de si mesmo, é realidade difícil de suportar. Como percebemos em nossas pesquisas e entrevista, o mito dos vampiros sobrevive até hoje por causa desta incapacidade do humano lidar com as dores do existir, da finitude da vida, da necessidade de explicações para tudo que lhe é desconhecido.

Inúmeras explicações foram dadas para o fenômeno do vampirismo surgido na Europa: falta de conhecimento sobre o processo de decomposição dos corpos nos séculos XVII e XVIII, surtos ocorridos de raiva, peste negra, tuberculose. As mudanças de ritos e crenças do católico para o ortodoxo em alguns países, que pode ter confundido aos cristãos, o abalo com a perda de um ente próximo, a crença no contato com os mortos e na sua volta, o clima, as condições do solo, o ataque de predadores.Todos estes fatores juntos contribuíram para a crença nos vampiros e a associação das mortes  ao maligno e sobrenatural.O fato é que quando algum acontecimento não tinha explicação para a comunidade, todos com uma concordância implícita, buscavam explicação em algo ou alguém sobrenatural. Diante de uma suspeita de doença epidêmica, a comunidade culpava os mortos e os exorcizavam como se fossem vampiros para salvarem os vivos.

Sendo membros de uma comunidade, geralmente de camponeses ou trabalhadores nos séculos anteriores, estes vampiros são vitimas de uma morte violenta ou doença súbita. Ao tornarem-se mortos-vivos aparecem como fantasmas incômodos a membros de sua família direta. Logo depois começam a acontecer coisas estranhas na comunidade, como a disseminação de doenças ou algo que as pessoas não entendem. Então os aldeões dirigem-se ao cemitério e desenterram o suposto cadáver. O que comprova sua crença é o que vêem quando abrem o caixão; ao invés de um esqueleto, um cadáver inchado com sangue na boca; quando trespassam a estaca no coração ouvem um gemido ou grito,eles acreditam naquilo que os olhos vêem. Mas há algo mais, o vampiro atinge a comunidade como uma doença contagiosa. (Vampiros, 2006).Para Lecoutex (2005, p.15), o vampiro é parte da historia desconhecida da humanidade, desempenha um papel e tem uma função; não brotou do nada no século XVII e XVIII. Além disso, ele faz parte de um conjunto de representações da morte e da vida, que sobreviveu até nossos dias.Sendo ainda, um símbolo da intrusão da morte e do além do tumulo por vias dissimuladas e brutais dentro de um universo que o exclui, ele é a demonstração que algo não esta seguindo seu caminho normal na natureza, o ciclo de vida e morte, deixando à mostra que há uma ruptura da ordem, uma contradição.Ele não é aceito no mundo dos mortos, tampouco no dos vivos, vagando eternamente entre os dois mundos.

Desde o inicio de nosso entendimento da vida nos perguntamos o que ocorre após a morte. Esta angustia e esta falta de conhecimento faz com que surjam todas estas especulações.Ao se apropriar de todas estas historias e mitos a literatura transformou e moldou o vampiro original, que deixou de ser um ser repugnante, que causava medo, aversão, nojo e o transformou num ser fascinante, belo, eterno, sobre-humano, um ser invejável, afinal Drácula venceu aquilo que mais tememos: a morte. Ele representa a possibilidade de viver eternamente, bastando para isto, beber um pouco de sangue.Mas os vampiros não entram em nenhuma ordem, em nenhuma classe, em nenhum cálculo da criação. Eles não são nem vida e nem a morte. Eles são a morte que afeta a vida; ou antes, são a máscara assustadora de uma e outra. Os mortos os repelem com pavor à noite, e os vivos não os temem menos.Desde que existe, o homem tem se atormentado por grandes questionamentos sobre sua origem, seu futuro e seu fim. Ele apresentou algumas respostas que se encontram em toda parte, sejam quais forem o povo e a época, e se evoluíram em aparência por causa dos progressos da ciência, ainda estruturaram nosso pensamento e encontraram uma expressão particular nas religiões.

A espantosa unanimidade das reflexões para além de todas as variantes prova que o problema da vida e da morte é realmente fundamental, o que não é nada espantoso já que, em função das respostas apresentadas, o homem pode conhecer o desespero e a esperança, encontrar um sentido para sua existência ou conhecer o absurdo.

Considerações Finais

Ana: Passei a considerar o mito como de extrema importância para a compreensão de nosso cotidiano.Como mulher através dos mitos pude compreender como o arquétipo rege as nossas vidas,desde a separação de meus pais para o casamento,filhos e trabalho.Infelizmente a sabedoria, os encantos dos deuses e deusas foram postos de lado pela cultura ocidental ,nossa cultura foi aos poucos se moldando em torno do conhecimento racional e cientifico e deixando de lado a sabedoria.O mito que utilizamos em nosso trabalho é uma imagem arquetípica interessante, pode nos causar medo e curiosidade, ele esta presente atualmente em nossa cultura e é rechaçado, traz nos discussões como:Morte, vida, iniciações e contato com forças obscuras,buscar a compreensão da vida através de aceitar e reconhecer embates que iremos travar e sob as quais nem sempre estão sob o nosso controle ou escolha.Pude perceber o quando o mito de Dionísio esta presente hoje em nossa sociedade quando vejo a grande demanda de pessoas dependentes químicas; vemos nas noites muitos jovens bebendo excessivamente, desregrados, descontrolados e possuídos.O mito de Dioniso coloca-nos de frente para a realidade e isso nos causa medo, medo de perdemos o chão e desconectarmos do que acreditamos ser real. No contato com esse Deus tudo pode ser desmascarado, despolitizado, se tornar mentira, hipocrisia e a corrupção pode vir a tona.Assim nos aproximamos do que esta distante, e ousamos inventar, criar o mundo e ser nós mesmos. Libertando-nos de tudo o que é convencional, dos clichês, dos hábitos banais, podemos viver em movimentação sem ficarmos cristalizados e engessados e uma única verdade.Dionísio nos proporciona descobertas, como sombras que esta encoberta em nós e que desconhecemos e que de um lado há um equilíbrio e de outro o desequilíbrio, nos ensina a viver e sentir as multiplicidades da natureza, vida e morte,clareza e escuridão ele une os mundos,as possibilidades.Vivemos em um mundo de incessante transformação, mas não estamos dando conta de atender as crises que estas mudanças refletem, se ampliarmos a nossa consciência através do mito e dos arquétipos poderemos ter uma noção de como conduziremos nossas vidas.

Diego: Considerando tudo o que foi pesquisado e estudado a respeito para elaborar este trabalho, foi significativo para mim, pois há pouco tempo venho me debruçando e reconhecido a riqueza de articulações e explicações a respeito dos mitos, de sua extrema relevância para obtermos conhecimento sobre nossa subjetividade e cultura ocidental. Pois como sustentava Jung, nossa psique é estruturada arquetipicamente, então estudando os símbolos, as imagens, é possível construir uma explicação minuciosa das nossas práticas culturais e formação de consciência.Nossa prática religiosa (Strigoi) verificada é pagã, muito interessante, pois, pesquisei a etimologia de pagã, do latim paganus que é aquele que mora no pagus, no campo, na Natureza. Contudo ficou mais evidente para mim o quanto os antigos tinham um contato tão intenso com a natureza, bem diferente de nossa época, onde a cientificidade desmistificou totalmente a natureza em prol do método da razão. Com leituras feitas sobre o feminino, me possibilitou novas perspectivas para a problemática da masculinidade que muitos estudiosos dizem estar em crise, e sem dúvida alguma, explicações da perspectiva junguiana do feminino a partir das leituras dos mitos. Sem mais, conclusão: eis um paradoxo, o mito é tudo e nada.

Joceli: De acordo com as informações recebidas durante o estagio e nossas pesquisas, formulamos este relatório que muito contribui para o aumento do meu conhecimento sobre os principais fundamentos junguianos. Entendi principalmente a utilização dos mitos para a interpretação e analise do psiquismo, sendo evidentemente o principal  instrumento de acesso e  ao inconsciente coletivo e aos principais meios de formação da consciência. Realmente este meu primeiro contato com a psicanálise analítica de Jung, me deixou muito curiosa e com vontade  por mais conhecimento sobre o assunto.A busca pela religião nos mostra a necessidade que o humano tem de entender o que lhe causa dor, sofrimento, questões angustiantes. Necessitamos de sentido para que possamos suportar nossas mazelas e dores. Desde sempre identificamo-nos com os mitos, pela necessidade que temos de buscar heróis, o sentido da vida, de certa maneira acredito que o mito dos vampiros vem nos ajudar a entender aquela  que talvez seja, com certeza  a maior causa de angustia em todos os seres humanos; o entendimento e aceitação da finitude da vida. Sempre buscamos a “vida eterna”, o não morrer. Neste sentindo, os vampiros nos remetem a este poder da vida vencendo a morte, de nos tornar mos imortal. Na prática strigoi que tivemos um pouco mais de contato, para a realização deste relatório, percebemos em seus ritos e rituais sempre esta busca pelo renascimento, pela vida plena, fertilidade e o contato muito próximo com nossos desejos mais íntimos. Acredito que este estágio  me proporcionou esta vontade de buscar mais informações sobre esta área da psicologia, para uma maior proximidade com as bases teóricas de Jung.

Anexos

Entrevista com Lord A.

Inicio a entrevista perguntando a Lord.A a etimologia da palavra Strigoi,  dizendo que significa povo fluido, também destaca que em grego, Strix significa pássaro negro que voava na noite. Hipoteticamente o Strigoi é uma visão politeísta e panteísta.De origem pagã, o termo Strigoi vem da Romênia e designava um dos muitos cultos/ritos de fertilidade da terra, baseados em processo extático e nos mitos e ritos da caçada selvagem. As bases informativas desta sentença provêm das obras do historiador italiano Carlos Ginzbourg. Praticamente o que nos últimos dois ou três séculos é denominado como “tipo de vampiro” tem suas origens em outros nomes ou termos que designavam antigos cultos de fertilidade da terra do leste e do norte europeu.”Strigoi é uma cosmo visão que não tem um livro sagrado, e não há conhecimento revelado, não há gurus, obviamente por ser uma prática pagã, e Lord.A deixa claro que não é uma prática de transcendência e sim uma comunhão imanente.Com relação ao processo da caçada selvagem, Lord. A explica que na ritualística de seu circulo ele se dá na possibilidade de ampliar a consciência e abarcar elementos velados ou não reconhecidos de sua própria totalidade.A utilização dos mitos e Ritos de fertilidade da terra tem como finalidade no circulo Strigoi busca da abundancia e prosperidade, sentir-se bem, Lord. A justifica que a completude é uma ilusão. Cultuam o Deus Dionísio, no sentido de que tomam vinho que revela no rito Strigoi a força indestrutível da vida.

O rito de fertilidade da terra tem como também tomar posse de seu poder criador, de sua energia de vida (criativa), destaca Lord.A na prática e cosmo visão Strigoi.  Fazem meditações, circunambulação em torno de um centro, entrada no templo e celebração do vinho.Pergunto o que é, e o que significa o contato com o Eu feral, Lord. A diz que é o gênio emocional, são comportamentos herdados em estado bruto, todo vasto território não apropriado, e pergunto o que fazer com esse eu feral, dizendo que é “cavalgar” o próprio gênio emocional(daimon), construir o próprio totem e reconhecer o animal caçador dentro de si. Os deuses do submundo simbolicamente têm influência na prática Strigoi, nesse sentido o submundo significaria o inconsciente (o lado noturno ou não-modelado no jargão vampiresco) o noturno e o obscuro se referem à dissolução das diferenciações, divisões e afastamentos do cosmos. A partir desta vivência do elemento noturno, a formação de um “corpo-de-sonhos” ou um duplo-etéreo chamado de “Dragão interior” no jargão vampiresco, o Strigoi montado em seu Eu – feral pode explorar todos os sendeiros da árvore do mundo, como um espírito indomável, um estado de ser inspirado e não-limitado pelos dogmas da religião e cultura dominantes. Lord. A destaca que o mito Hades e Perséfone  embasam e sustentam os ritos Strigoi que é uma ritualística de renovação, transformação e ampliação da consciência através da arte.Hades ou Plutão representam tanto um reino dos mortos quanto um Deus, que neste caso é o regente do não-modelado, e o limiar final da imaginação humana.

Segundo Lord A. é preciso entender que desde a antiguidade o símbolo associado à Hades representa o sétimo dia, onde se processa os mistérios da indolência do prazer e do repouso onde se festeja tudo aquilo que viveu – estruturante ou desestruturante. Para Lord.A pode-se comparar a taça de Hades com a momento em que obtemos uma compreensão mesmo que aparente do sentido em que damos a nossa vida, no final de uma semana. Bebemos este “Sangue” (somatória de vivências) e caímos no êxtase até despertarmos recompostos e resignificar no alvorecer seguinte, transformados, renovados e desenvolvidos.Perséfone é o ciclo, a taça formativa que dança e envolve Hades enquanto regente do submundo. É uma deusa com papel duplo, no lado diurno Perséfone “a menina dos olhos”, ou as estações quentes representam o consciente, e no lado noturno, ou as estações frias ela olha para o interior que é o próprio “Sangue” – a totalidade que é vertida e que Hades beberá ao final.Celebram Noites Scarlates, caracterizando (noites quentes), ligada a sexualidade, celebração do amor, que representa a relação amorosa entre Hades e Perséfone.

“Ver como estamos na escuridão mais profunda e na luz mais radiante”O Strighezzo das noites Scarlates é uma visita simbolicamente a casa de Vênus-Afrodite, a totalidade do amor do bom e do belo, do amor platônico ao amor cortês (Eleanor de Aquitânia e os Trovadores) até a face avassaladora e destruidora das paixões, (como na história de Cleópatra, ou Carmem de Bizet). E por que não dizer dos amores de Shiva e de Kali, Sekhmet e Ptha, ou ainda Perséfone e Hades, relata Lord.A.

O cortejar e o terror, ou entusiasmo e melancolia na práxis Strigoi é explicito no jogo de sedução de Hades e Perséfone.   O Strighezzo das noites Scarlates é parte integrante e seqüencial de uma roda do ano de celebrações e festividades inspiradas parcialmente nos mitos e conteúdos aqui relatados por Lord.A. Cortejar é o jogo de atração e estímulos do olhar, do sensorial e aquilo que ativa e somatiza no corpo dos amantes, o terror, limiar – o que há depois, a porta entreaberta no final do corredor escuro – o dragão guarda o tesouro.O vampiresco no Strigoi representa a imortalidade, o eterno presente onde sorvemos o “Sangue” que simbolicamente em nosso meio um jargão para a totalidade da historia e experiências culturais coletivas.

Referências

Alvarenga, M.Z. Mitologia Simbólica. São Paulo: Editora Casapsi, 2010. 341 p.Jung, C. G. (1975).

Memórias, sonhos, reflexões. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira

Jung, C. G. (1981). O eu e o inconsciente. In Obras completas de C. G. Jung, Vol. 7 Petrópolis: Vozes. Originalmente publicado em alemão em 1928.

Nietzsche, F. Crepúsculo dos Ídolos: Como filosofar com o martelo (1888). São Paulo: Golden Books, 2009. 151 p.

Lecouteux, C. História dos Vampiros: Autópsia de um mito. São Paulo: Editora UNESP, 2005.

210 p.Neumann, E. O medo do feminino. São Paulo: Editora Paulus, 2000. 276 p.
Frey-Rohn, L. (1991). De Freud a Jung. México, D.F.: Fondo de Cultura Económica.

Bibliografia consultada
2-Pouzadoux C. Contos e lendas da Mitologia Grega. São Paulo: Companhia das Letras, 2001[acesso em 9 jun 2011]. Disponível em: http://www.botucatu.sp.gov.br/Eventos/2007/contHistorias/bauhistorias/Contos%20e%20Lendas%20da%20Mitologia%20Grega.pdf

Para maiores informações visite:
http://www.vampyrismo.org/circulostrigoi

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