Sopor Aeternus and the Ensemble of Shadows

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Sopor Aeternus and the Ensemble of Shadows

[dropcap ]O[/dropcap]“Sopor Aeternus é um dos projetos musicais mais interessantes e misteriosos que já tive a oportunidade de escutar – e de assistir nos videos através da internet durante a última década.A mistura de uma música evasiva com uma performance “butoh” – com toques de “drag queen” nos clipes mais recentes, vem a criar um contexto visual único. Ali encontramos reflexos de uma versão sombria e soturna da protagonista Hedwig do musical homônimo e em algumas músicas como “Hades Pluton” influências diretas de Night of Vampire de Roky Erickson. Mas a criatividade e a estética única da sua música e dos seus clipes vão ainda muito mais além…camadas e tessituras refinadas de flautas e guitarras com distorções e efeitos muito bem escolhidas. Aquele momento que impulsionou o trabalho foi a participação da faixa “Feast of Blood” na coletânea vampiresca germânica “What Sweet Music they Make!” – e que certamente garantiu seu lugar aqui em nosso blog musical do Rede Vamp. Há também a questão do uso do sobrenome “Varney”(outro personagem vampiresco dos tempos do romantismo). Para me ajudar nesta tarefa de escrever sobre o Sopor Aeternus convidei o simpático casal Drako e Licht Wolfrik (frequentadores do Encontro do Tarô dos Vampiros) para contribuírem comigo nestas distópicas linhas que vem a seguir.”

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Porque é difícil escrever sobre Sopor Aeternus?Porque tanto o vocalista quanto os músicos (sim, eles existem!Segundo consta não há nenhuma formação fixa deles) escolheram pelo anonimato, a escassez de informação e a constante recusa de se apresentarem ao vivo. Dada a complexidade daquilo que fazem, seria um feito heróico executar uma apresentação ao vivo a altura da obra de estúdio.Além disso o próprio FAQ do site oficial deles já informa que Varney considera o estúdio seu espaço sagrado e tudo que grava é pela primeira e última vez – pois sentiria-se ridículo em reproduzir tudo isso perante outros ao vivo. Paradoxalmente a banda fez uma apresentação ao vivo e nela gravou a canção “Dark Delight” mas sem platéia alguma, uma possível homenagem aos mortos que acompanham seu trabalho.A própria canção é dedicada ao “Fantasma de Montparnasse” que assombra o cemitério Père Lachaise, em Paris… além disso temos doses de humor subversivo sutís diluídas em toda a escuridão deste contexto.

 

“Quando falamos de bandas góticas nós abrimos um grande livro de bandas e conteúdos, algumas bandas são dotadas de muitas peculiaridades e bastante originalidade, com sentimentos puros transmitidos em sua musica, suas vestes e em sua própria aparência, tudo alí bem diante dos nossos olhos – pedindo apenas um pouco do nosso tempo e de compreensão.(…)O Sopor Aeternus explora temas duros e não superficiais de forma exibicionista e de tons introvertidos.Devido a escassez de informações disponíveis a obra de Varney se torna ainda mais original e autêntica graças a aura de mistério que orbíta em torno de sí.” Drako Wolfrik

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No site oficial vemos que Varney e seus colaboradores baseiam o trabalho na sagrada trindade da música, poesia e visual, enfatizando a expressão pragmática da dor, isolamento, depressão, segredos suícidas e uma busca desesperadora de se reunir ao sagrado novamente – interpretado pelo protagonista solo Anna Varney Cantodea – as vezes uma deusa transgênera e outras um figura dramática e trágica saída do butoh oriental – nuances de psicologia jungiana e ritualística tribal pagã se integram nesta mistura… Desta forma temos uma protagonista realmente única que empresta uma seríedade e gravidade especial a todo o conjunto da obra – cujo o nome real é desconhecido para o resto do mundo! Os boatos mencionam as origens do Sopor Aeternus aconteceram do encontro de Varney e outros dois integrantes no clube germânico “Negativ” e lá debatiam sobre novos rumos para o contexto musical alternativo… mas isto é apenas especulação…

Em todo caso, sempre haverá um começo para tudo, especulamos que este tenha ocorrido entre os anos de 1988 e 1992 que foi quando surgiram as primeiras “demos” que foram:” Es reiten die Toten so schnell ” , ” Rufus on my lips ” e ” Till time and times are done ” – dada a temática lugúbre ficaram conhecidas como ” Undead Trilogy “, trilogia dos mortos em tradução livre. Segundo leitores do RedeVamp, infelizmente este lançamento ficou apenas na especulação. O ano de 1995 foi o ano que garantiu o começo da visibilidade mundial desta banda, quando participaram da coletânea vampiresca “What Sweet Music They Make” com a canção “The Feast of Blood”. E desde então já foram pelo menos 16 álbuns gravados com talento e habilidades ímpares.Outra canção descaradamente “vamp” é a “Es reiten die Toten so schnell”, baseada em um verso de ” Lenore”, de “Gottfried August Bürger” — citada no “Drácula de Bram Stoker” — que significa “porque os mortos cavalgam rápido”.

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O contexto da “morte” é densamente explorado pelos vocais de Varney e torna a tudo assombrosamente sublime – com o vocalista oscilando entre tons masculinos e femininos, do tom provocativo a lamúria – uma gravidade fúnebre e lúgubre que nos leva a ponderarmos sobre a finitude e os mistérios que vivenciaremos quando for a hora de atravessarmos tal região ao fim da vida.Haverão momentos de sadismo, sexualidade conturbada, paganismo e muitos outros.Some a tudo isso o elemento que o próprio “Anna-Varney Cantodea” atribui aos desencarnados em cada parte de seu trabalho.Não surpreende o nome do projeto ser “Sopor Aeternus” em latim que podemos traduzir como “Sono Eterno”.Já o complemento “The Ensemble of Shadows” é a justa homenagem aos mortos que lhe acompanham no processo criativo.

Outra parte que enriquece o conjunto da obra e levou a menção ao personagem Hedwig – é que nos álbuns “Voyager – Jugglers de Jusa” e “Traveller espiral inexperienced” vemos o conflito da transexualidade de Varney ser explorado de forma intimista e intensa em cada passagem.Sobre esta questão, o próprio conta em entrevista a revista germânica Witchcraft que não nasceu hemafrodita, mas nas imagens que explora sua nudez, altera digitalmente sua sexualidade ou mesmo a ausência dela – pois não pretende passar por uma cirurgia de mudança de sexo devido aos conflitos espirituais que ele acredita que sofreria se fizesse tal escolha.Neste ponto vemos que para Varney, a dança Butoh é aquilo que lhe permite transformar em beleza aquilo que considera repulsivo em sí e o tornar algo com o qual possa viver dentro do seu processo operativo.O Drako inclusive levantou para a gente o significado do símbolo Jussa que vemos em muitas obras do Sopor Aeternus, formado pela junção de dois símbolos astronômicos  o de JUpiter e o símbolo de SAturno.Formando assim o símbolo de JUSA representando a coexistência do positivo e do negativo. Júpiter: O meio-círculo (da alma) procura se elevar acima da matéria (cruz). Expansão da alma. Saturno: A matéria (cruz) domina a alma (meio círculo). O corpo material é uma limitação aos anseios de elevação da alma. Limite, carma. Conforme pode ser observado na imagem abaixo:

Jusa

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Para nos despedirmos, deixamos os leitores com a poesia de Licht Wolfrik, sobre

Vozes Espirituais

Em dias turbulentos, quando a alma já não mais vive.

Torna-se fútil dizer bom dia

Viver para que? Se de qualquer forma estarás entre nós

Aquelas vozes malditas, que me atormentam durante o anoitecer.

Sois vós…

São os dois mundos se unindo em um só lamento

Não quero, mas preciso.

Não devo, mas insisto.

Que se por vezes morrer for à salvação, quem dirá a eles o quanto têm sorte.

São comuns, simples ou autoritários

Angustiados pela forma que assumiram

São ignorados e amados ao mesmo tempo

Não sentem vida e não vem à morte

Atormentados… Estas vozes recuam

São infinitos, encantadores.

Por que deixa-los de lado quando podemos tê-los para sempre

São assim, atrapalham, nos iludem, nos matam.

Suas vozes ecoam em um timbre desesperador

São frívolos, amantes da noite.

Adormecidos materialmente, em suas moradas estarão a transitar.

Caminhando lentamente para não nos acordar

Em seus sonhos estarão para guarda-los

Serão os anjos e demônios que tanto temem

Serão as vozes que te conduzem ao caminho certo

Seria-vos o infiel a abandoná-los?

Tempo… É tudo o que pedem

Medo… É tudo o que têm

Perdão… É tudo o que querem

Salvação… É o que desejam

Não subestime o outro plano

Não se iluda com esta vida.

Poema escrito no ano de 2007, dedicado à Ana Varney Cantodea, por: Licht Wolfrik
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