ENTREVISTA: HOCICO (com Racso Agroyam)

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ENTREVISTA: HOCICO (com Racso Agroyam)

Scorpion Flower Divulgação 13 mMaia Guerra é a apresentadora do programa “Scorpion Flowers” que vai ao ar nas noites de segunda-feira na webradio ACIDIC INFEKTION, recentemente ela entrevistou por lá o Racso Agroyam fundador do HOCICO um dos expoentes a nível mundial do Aggrotech e Dark Electro. Junto de seu primo Erk Aicrag, representam o que há de melhor no México, nos apresentando sempre um som eletrônico agressivo, criativo e de muita qualidade.e compartilhou conosco a transcrição. Gratidão Maia, Ives e esquipe.

Maia Guerra: Como surgiram os projetos “Niñera Degenerada” e “Hocico de Perro”, assim como o próprio Hocico? Como foram as primeiras experiências no palco para aquela época (equipamento, organização, iluminação, ensaios) e como foi a melhor experiência em um show que tiveram até hoje como Hocico?
Racso:
Nesse tempo não  existia tanta tecnologia.  Comecei com alguns teclados, não eram sintetizadores. Iniciei o projeto “Niñera Degenerada”, onde eu mesmo cantava e fazia a própria música. Era um projeto de brincadeira, não era para ser levado a sério. Apesar de ter sido através dele que iniciei na música.  Depois “Niñera Degenerada” se converteu no projeto “Hocico de Perro”.

No “Hocico de Perro” agreguei outro teclado com um pouco de distorção.  Não havia vozes. Creio que havia uma ou duas canções em que eu cantava. O nome “Hocico de Perro” era muito grande, por isso depois se tornou apenas “Hocico”.

Continuei com outro vocalista, um primo meu, Goruci Vilan, somente depois que entrou Erk, já como Hocico.

No primeiro show não havia muitas luzes, inclusive as luzes eram improvisadas por nós. Montamos um rack com luzes especiais e um amigo nosso as manipulava.Sobre as Melhores experiências em um show atual, pois bem, são infinitas.

Até porque, assim como no México, Rússia, Alemanha ou nos festivais, o calor que retorna das pessoas é enorme. É muita energia que circula, um vai e vem de energias. Meu primo Erk recebe muita energia e ele também a repassa para nós.São concertos muito energéticos com o público. Esta é uma das coisas particulares do Hocico ao vivo: Energia.Sempre vamos acrescentando ou retirando um pouco quando fazemos shows. E, bem, até o momento atual a energia não acabou.

Maia Guerra: Nos conte sobre  a experiência em tocar ao lado de Blutengel, Rammstein e Marilyn Manson?  Vocês possuem uma maior afinidade com bandas européias? Quais das bandas atuais você nos indicaria para escutar?
Racso:
O primeiro concerto com uma banda grande foi com Marilyn Manson. Foi uma experiência incrível, mas naquela época também foi muito pesado. Hocico não era uma banda que estava preparada para abrir um concerto para 18 mil pessoas na cidade do México. Era como ver uma onda que vinha em nossa direção para nos esmagar. Depois desse concerto, desfrutamos, mas era muito o temor do palco. Bom, as inexperiências e certas coisas passaram e depois disso passamos a tomar algumas medidas sobre o assunto. Tratamos de melhorar e não voltar a passar novamente pela mesma situação.

O público se agitava e gritava “Manson! Manson!” enquanto Hocico estava tocando. Ninguém esperava ou acreditava que uma dupla de garotos estivesse abrindo um concerto para 18 mil pessoas.Vários anos depois, abrimos para Rammstein e aconteceu o mesmo. Foi um pouco complicado porque as pessoas não aceitavam Hocico. Não sei o que aconteceu. Tivemos falhas no áudio assim como aconteceu no show com Marilyn Manson. Para nós foi algo ruim e bom ao mesmo tempo, porque a experiência foi intensa, muito forte.

Depois fomos para Alemanha e iniciamos a nossa primeira tour, alternando com diferentes bandas. Hocico já estava amadurecendo na cena. Não tivemos mais problemas ou medo de tocar para muitas pessoas ou em palcos grandes. Tocamos com The Cure, Fields of Nephilim, em festivais, inclusive uma vez com Cranberries e também com Blutengel. Chris Pohl é amigo nosso, sempre que nos encontramos, nos cumprimentamos.  São muitos os amigos que temos na Europa.Há 15 anos atrás a música eletrônica não era popular, era algo muito complicado.E a Europa, em especial a Alemanha, era um dos que estavam mais apegados à música eletrônica. Então quando Hocico chegou, se encaixou perfeitamente na cena que vigorava nos anos 90, o Industrial.Hocico passou pela etapa do Industrial ao Electro por volta de 1997. A Europa aceitou bastante bem o Hocico.

Meu primo, Erk, vive na Alemanha e eu moro no México. Já morei na Alemanha, é a nossa segunda casa e onde também está nossa gravadora. Atualmente tocamos e nos apresentamos nos festivais com muitas bandas, novas e grandes.

hocicoMaia Guerra: Hocico foi um dos co-fundadores da cena eletrônica mexicana junto a bandas como Cenobita, Deus Ex-Machina, Oxomaxoma, entre outras. Como é acompanhar o crescimento de todos os seus colegas de outras bandas junto ao Hocico, como vêem o futuro desta cena?
Racso:
Entramos em uma organização chamada “A Corporação”. Estava indo tudo bem, mas surgiram algumas diferenças e como não gostamos deixamos esta organização. Hocico seguiu em frente e iniciou com sua nova gravadora, a “Opción Sonica”, uma das gravadoras que apoiavam a música eletrônica.

Começamos a crescer, fizemos alguns circuitos eletrônicos, em locais especiais, como Museus, na cidade do México, onde apreciavam-se vários estilos de música eletrônica. Muitos artistas começaram, a surgir, assim como muitos projetos.

Alguns ainda continuam na ativa, talvez não todos, mas isto começou a gerar essa cena, mesmo que de modo não formal no México. Inclusive haviam outras bandas antes de Hocico, como “Década 2” e “Interface”, que já tinham vinil lançado de seu material.

É difícil saber o que ocorreu com todas as bandas mexicanas, mas Hocico continou se mantendo.

Tratamos de apoiar grupos, porém hoje é um pouco diferente, há muita internet e os grupos já não querem apoio, porque eles já tem seu auto apoio.

A cena continua gerando grupos como “Amduscia” e alguns grupos mais novos, mas que não conseguiram se manter tão populares no México como no auge em que chamavam atenção. Grupos como “Amduscia”, “Selector” e outras bandas, por alguma razão não conseguiram atingir o mesmo que o Hocico.

Não sei explicar, é complicado. Tratamos de apoiar, mas existem egos, diferenças, então nos distanciamos um pouco disso. Com exceção de que há bandas, que talvez em um futuro distante, talvez no próximo ano, eu tenha minha gravadora e possa apoiar bandas latino americanas, assim como européias e inclusive as mexicanas.

Maia Guerra: Nos conte um pouco sobre o Rabia Sorda, projeto de Erk, seu primo. E também nos fale sobre como você diferencia a sonoridade e os temas em relação ao Hocico?
Racso:
Sim, “Rabia Sorda” é o projeto de Erk e eu tenho meu próprio projeto, o “Dulce Líquido”. Em comparação ao som, são bem distintos. Ele, com o Rabia Sorda, é um pouco mais voltado ao rock. E eu, com o Dulce Líquido, sou mais voltado ao Industrial e Aggro Noise.

Veja, são tipos diferentes de energia, são correntes alternativas ao Hocico, porque possuem um som próprio entre o Dark Electro, Aggrotech,  Punk,  Eletrônico.

Bom, o Rabia Sorda é um pouco mais punk, um pouco mais melódico. E o Dulce Líquido são bits altamente além do convencional, algo mais Industrial, mais denso e também com um pouco de Electro.

Tratamos de oferecer essas opções além do Hocico, para não fazer o mesmo do mesmo e, assim, oferecer outras facetas, o que nós também gostamos, falando musicalmente.

Pergunta Maia Guerra: Nos fale também sobre o novo álbum “Ofensor”, que foi lançado oficialmente em 27 de novembro de 2015.
Racso:
Sobre este novo material do Hocico, adianto que o que está por vir será algo muito bom, pois o Hocico está em um momento de amadurecimento com a música e o conceito que os originou, porém com toques mais evolutivos.

Há bastante remix, temos alguns latino americanos que fizeram remix para este trabalho. Temos, inclusive, três músicas extras.O primeiro disco se chama “Ofensor”, o segundo tem o nome de “Agresor” com três músicas únicas e o terceiro disco se chama “Invasor”, que será um álbum de remix.

Parte deste trabalho iremos lançar também no segundo single, que leva o nome de “Bienvenido a la Maldad” e que virá com o vídeo que está sendo lançado. A gravação deste vídeo na Itália levou cerca de duas semanas e ficamos muito satisfeitos. Na minha opinião, é uma das canções que mais gosto, assim como o público poderá escolher quais irão gostar entre tantas outras canções.

Desta vez nos envolvemos muito mais do que em “Tiempos de Furia” ou em “Memorias Atrás”. Este disco nos encanta porque traz muita energia, tem algo de Punk, Aggrotech. Acredito que seja um dos discos musicalmente mais variados e, em particular, um dos melhores.

racsoMaia Guerra: Como a tecnologia influencia o som de hocico, sem tirar sua identidade e como é o processo de criação das letras? O que podemos esperar do próximo álbum?
Racso: A tecnologia que o Hocico implementou no início não era feita com computador e, sim, apenas com sintetizador. E realizamos 07 discos utilizando apenas o sintetizador e um processador de efeitos. Mais tarde veio a onda dos computadores e começamos a nos aprofundar mais sobre o assunto.”Siglos de Aberración” foi um álbum criado usando um computador com sinths virtuais.

E isto foi crescendo e crescendo até o momento em que agora, para compor em estúdio, uso quatro computadores, sendo dois deles sincronizados.  É um pouco de parafernália porque tenho muitos sintetizadores, além de muitos softwares e programas como Pro Tools,  Cubase, Renoise,  Ableton Live, entre outros, utilizo todos.

Hocico não se detém perante a tecnologia quando se trata de encontrar um som e sempre sem perder sua própria essência.

No que se refere às letras, os temas também evoluíram. Neste novo disco há bastantes diferenças, inclusive uma canção que tem trechos em alemão. Também há canções em inglês e espanhol, assim como o tema do segundo single “Bienvenido a la Maldad”.

Falamos das cidades violentas, que na realidade geram essa violência, como se alguém tivesse nascido encapsulado, como em uma prisão. Então vemos esta cidade violenta como uma prisão, cheia de problemas, onde alguém termina infectado com esta violência.

No vídeo será diferente, mas em si este é o conceito que tratamos sobre violência e morte, sobre as coisas negativas que as pessoas não falam normalmente, ou seja, toda essa negatividade. O lado negativo da mente humana é sobre o que fala Hocico. Um pouco sobre liberar a alma desta energia negativa. Não somos partidários da violência, mas tratamos de abordar de modo poético estas questões, que demonstram no fim,  que não há limites quanto ao que falamos ou queremos demonstrar.

E esta é a fusão onde crio as músicas. Meu primo, Erk, apresenta a letra, ela tem que inspirá-lo e assim ela começa a tomar forma. Interagimos muito bem, até porque no Hocico compomos à distância. Trabalhamos utilizando Skype, Viber etc, por onde enviamos os arquivos. E já são 05 anos trabalhando desta forma através da internet. Ou seja, não há como ter mais tecnologia do que isto. Abusamos da tecnologia no Hocico.

Maia Guerra: Quais as influências musicais atuais de Hocico e como comparam o crescimento artístico de vocês há cerca de 20 anos atrás e com o que a banda se tornou hoje?
Racso: Há muitas influências, inclusive da própria música eletrônica. Gosto muito de música Club, assim como de Dubstep,  Complextro, Drumstep, Techno, Progressive Trance, inclusive algo de Hardcore, Eletrônico da Holanda. Isto é o que eu mais gosto.

Meu primo tem mais influências de Rock, Indie e algumas coisas que me encantam como Minimal Wave das novas correntes. Sempre digo que atualmente há muitas músicas novas para escutar.

Para o Hocico as influências musicais são muito poucas, porque o Hocico se gera do próprio Hocico. E comparando, vendo os anos passarem de 1989 até hoje, Hocico amadureceu bastante, porque antes éramos nada mais do que um baixo e bateria. Era a época do Industrial.

Hoje somos mais completos. Não completos que soemos como uma orquestra, mas porque há muito mais melodias e, que mesmo assim, não deixam de ser obscuras e profundas.

Eu acredito que neste novo disco vão perceber alguns toques da velha e nova escola.

Muita gente pergunta se Hocico está mais atual, se está mais dançável, o que aconteceu com o Punk, o Metal, a essência Black metal e coisas assim. Sempre são uma fusão. Neste disco cada canção é um pouco distinta, assimilando cada etapa, mas sem deixar de ser evolutiva.

Hocico se inova sempre dentro de seu ramo, dentro de seu estilo.

É divertido brincar com diferentes ritmos, inclusive música orquestral cantada, razão pela qual a incluímos desta vez. Gosto muito de uma canção chamada “Murder”, porque ela tem algo único. Gostamos de experimentar, sem sairmos do estilo do Hocico.

São mais de 20 anos em uma evolução constante agradando aos novos e antigos fãs, onde tratamos de não mudar a essência ou nos tornarmos Dubstep ou outra corrente como o Drum N’Bass. Há canções do Hocico com sonoridade Drum N’Bass, mas é um pouco complicado que todas as pessoas possam aceitar.

Maia Guerra: Qual a receita para construir uma cena industrial tão forte como a mexicana? Gostaríamos muito de ouvir suas dicas e conselhos.
Racso:
Eu creio que o primeiro é paixão. O que as pessoas e os promotores devem ter é paixão.Eu percebi que no Brasil há paixão. Mas as pessoas devem levar isso a sério. E sério significa investir dinheiro, tratar de crescer e não permitir que a cena vá abaixo. Nós, desde 20 anos de banda, vimos crescer tudo isso. De repente muita gente começou a se envolver e mais e mais pessoas, tornando assim um pouco mais  popular a cena electro no México. Havia uma cena Dark, mas hoje não é mais tão popular.

Eu acredito que o primordial é a paixão.

Bom, às vezes não há dinheiro. É complicado. Do mesmo modo que levar grupos a outros países, alimenta sempre mais a cena, se não houver muitas bandas da cena, as pessoas deixam de se interessar. E, conseqüentemente, poucos passam a querer ir a um concerto de uma banda internacional. Por isso, se a banda não for levada para fora em dois anos, o público irá embora. Tem de ser uma constante de eventos e de bandas. E isto que foi o clímax quando veio a onda industrial há cerca de 20 anos, em que muitos começaram a se envolver e se mover na cidade do México. O público foi surgindo e nessa época havia cerca de 2000 pessoas que ouviam Front 242.

Porém, de repente, houve um lapso de tempo em que tudo sumiu e, novamente, voltou a regressar.

Eu acredito na música eletrônica. Não é tão fácil no México porque houve tempos complicados, mas não difíceis. E, bem, uma cena é gerada por bandas, por bandas estejam interessadas.

Havia bandas importantes do Brasil, não me recordo o nome agora, que de repente voltaram a se apagar também.

Sabemos que há pessoas interessadas, mas o México é um país gigantesco onde a maioria agora é um pouco mais estável. Faz 20 anos. Ninguém sabia antes o que era música eletrônica agressiva.

imagem do Video bienvenido a la maldadMaia Guerra: Como foram as gravações do novo vídeo chamado “Bienvenido a La Maldad”?
Racso:
Foi algo inusitado. Desde que o Hocico começou era complicado gravar um vídeo. Somos daquelas bandas um pouco mais lendárias, mas com poucos vídeos. Chegaram a fazer um vídeo na Alemanha, “Bite Me”, mas este vídeo não teve muita produção. Fazia muito frio, estávamos congelados, fazia uns cinco graus. Tentamos fazer um pouco de calor, mas o frio estava terrível em Hamburgo.  O vídeo de “Dead Trust” foi um pouco mais simples. Foi feito por amigos de uma universidade da cidade do México, que montaram este projeto e criaram o vídeo de “Dead Trust”.

Neste novo vídeo há um diretor italiano, com atores, uma bailarina e algumas questões que nos divertiram muito.

Veja, não é um vídeo divertido, talvez seja um vídeo violento. Estamos esperando para vê-lo por completo, mas pudemos desfrutá-lo e nos divertimos durante as gravações. Foi o primeiro vídeo que gravamos desta categoria. É de um ótimo nível. Feito pelo diretor que fez o último vídeo do Blutengel, então tem um formato de bastante qualidade.

Eu acredito que esta canção, “Bienvenidos a La Maldad” se tornará um hit, vai ser algo que irá durar por anos. Aguardamos o vídeo por que é a primeira vez que realizamos algo assim. É a primeira vez que este diretor realizou algo com muitos atores e eu acredito que em breve irão curtí-lo.

Maia Guerra: Qual a previsão para um show do Hocico aqui no Brasil? Deixe uma mensagem para seus fãs.
Racso:
Estamos em negociações. Temos alguns promotores interessados e pretendíamos ir em Dezembro, porém alguns detalhes não puderam ser concluídos para que pudéssemos retornar à América do Sul e passássemos pelo Brasil.

Esperamos que para a turnê de “Ofensor”, possamos estar no Brasil, porque, claro, amamos nossos fãs brasileiros. Eles são muitos e nos escrevem, a ponto de podermos sentir o calor destes nossos fãs.

Claro que nós queremos regressar ao Brasil. E eu mesmo estou em negociações com promotores para que, em Abril ou Maio, possamos levar a turnê para apresentarmos o disco no Brasil.

Seja no Rio de Janeiro etc, não importa qual cidade, mas sim regressar ao Brasil.

Maia Guerra: Seus fãs brasileiros esperam por você em breve. Obrigado e aguardamos próximas oportunidades, assim como novas canções para tocar na rádio e em todo o mundo.
Racso:
Obrigado! Também fiquei encantado. Já sentíamos falta de uma boa entrevista do Brasil para Hocico.

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